“Um bom jornalista precisa de duas coisas: paciência e prudência”
Por Heider Mustafá e Vanessa Caldeira
Foi escrevendo os jornais da escola, desde a 5ª série, que o repórter Jorge Gauthier começou a desenvolver o gosto pelo jornalismo. Nascido em Paripiranga, município situado no nordeste da Bahia, próximo à divisa com Sergipe, Jorge sempre soube das dificuldades que encontraria na profissão, sobretudo a maior delas: a baixa remuneração. Desde seu ingresso na Faculdade de Comunicação da UFBA, em 2005, Jorge começou a trabalhar em uma empresa de telefonia. No emprego alcançou o status de instrutor, o que lhe rendia uma boa soma no final do mês. Porém, curioso para entrar de vez no mundo da informação, o jornalista largou tudo e iniciou estágios em jornais, assessorias de comunicação, até passar numa seleção para o site do Correio*.
Hoje, já formado, Gauthier se diz totalmente integrado à linha editorial do Correio*. Na redação, ele é conhecido por sua concentração, cuidado na apuração das pautas e humor inconfundível. Perguntado por seus temas preferidos dentro do jornalismo ele confessa: “-Gosto mesmo é de contar histórias”. A resposta condiz com a atividade desenvolvida por ele na editoria local do jornal. Por suas mãos passam importantes pautas, que, em horas, se transformam em grandes matérias. Sua principal preocupação é ser correto, justo e fiel aos seus princípios. Nesta entrevista, Jorge Gauthier conta como é sua rotina de trabalho e fala como faz para alcançar seu maior objetivo dentro do jornalismo: ser um profissional reconhecido por seu trabalho.
Heider e Vanessa: Como é a sua rotina de trabalho?
Jorge Gauthier: Meu dia começa relativamente cedo. Entro na redação às 9h, sem horário certo para sair. O horário de saída depende do dia e da quantidade de pautas que eu recebo. Quando estou com “A Matéria”, geralmente só saio às 22h – ou até de madrugada, depois das duas da manhã, como já aconteceu várias vezes.
H&V: Qual o número de pautas que você recebe diariamente? Suas matérias ficam restritas apenas ao jornal?
JG: O número de pautas é bem variável, mas geralmente fico com uma matéria do Mais* e uma ou duas notas para o 24h*. Entretanto, não é uma quantidade fixa. As matérias que faço são para o jornal, mas quando o assunto é relevante para o site ela é reaproveitada. Existe uma integração muito grande entre os veículos de informação da Rede Bahia. A troca de informações entre rádio, TV, site e jornal é intensa.
H&V: O que você achava do Correio* antes de trabalhar no jornal e o que acha agora?
JG: Quando cheguei para trabalhar no jornal ainda era o antigo Correio da Bahia. Na época, o periódico travava uma luta diária em busca de um maior espaço no mercado soteropolitano e baiano. Tive a chance de participar da reforma que gerou o Correio* e hoje posso falar com propriedade que ele não é apenas mais um jornal da cidade. O Correio* é hoje, principalmente, o jornal que incomoda a concorrência. A meu ver, isso é ótimo porque o repórter percebe que todo o esforço feito desde a apuração da pauta até a publicação da matéria ganha repercussão e perturba a concorrência.
H&V: Qual é a linha editorial do Correio*?
Jorge Gauthier: Definir linha editorial é complexo. Para o repórter, como eu, que sempre está na linha de frente, responsável em fazer a matéria para está impressa no dia seguinte, o que importa é fazer o assunto – seja ele qual for – render o máximo possível, sempre fazendo uso da ética e da responsabilidade na apuração dos fatos.
H&V: Como foi se adaptar à linha editorial do veículo?
JG: A adaptação foi fácil, principalmente porque na fase do Correio* as pautas são mais instigantes.
H&V: O que você quer dizer com “pautas mais instigantes”?
Jorge Gauthier: [Risos] Nada demais. Na verdade, são aquelas pautas que classificamos como quentes, investigativas, mais emocionantes. Só isso [risos].
H&V: Para você, o que é notícia?
Jorge Gauthier: Notícia é o fato que importa ao leitor, que denuncie irregularidades e de preferência incomode o concorrente.
H&V: Seu entendimento de notícia coincide com o entendimento dos editores?
JG: Sim. Coincide.
H&V: Quais são os critérios para a escolha de uma matéria no Correio*?
JG: Nas páginas do Correio* só entra o que é entendido como importante para o leitor. Nossa maior preocupação é com o público final. O assunto, para ganhar destaque, por exemplo, deve estar bem amarrado, sem nenhuma falha de apuração e principalmente com um bom relato dos fatos.
H&V: Em algum momento você escreveu alguma matéria sobre um fato que julgou irrelevante?
JG: Que eu lembre não. Até porque se foi irrelevante eu já esqueci [risos].
H&V: Como você costuma construir suas matérias?
JG: Costumo dizer que são três ferramentas básicas: apuração, reflexão e concentração. Com isso, eu sempre procuro desenvolver as pautas e transformá-las em matérias.
Heider e Vanessa: Você escreveu a matéria sobre o assassinato do apresentador Jorge Pedra, na edição do dia 03 de novembro de 2009. A notícia foi veiculada também pelos jornais A Tarde e Tribuna da Bahia. Como você avalia e compara as três matérias?
Jorge Gauthier: Pra falar a verdade, não li o que saiu no A Tarde e na Tribuna. Um erro não ter lido, mas foi o que de fato aconteceu (risos). Nas minhas matérias faço questão de relatar a história de modo que o leitor seja transportado, na medida do possível, para o local do fato. Incontestavelmente, isso enriquece o conteúdo oferecido ao leitor. Acredito que nosso público se identifique e goste dessa forma de elaboração do conteúdo jornalístico.
H&V: Em sua opinião, qual a linha editorial do A Tarde e da Tribuna?
JG: A linha editorial de cada veículo é bem restrita aos seus integrantes. Quaisquer análises de quem está de fora são meras especulações. Prefiro não arriscar.
H&V: O que você escreveu sobre o caso Jorge Pedra foi publicado na íntegra ou houve alguma interferência do editor?
JG: Normalmente, sempre tem uma ou outra alteração, mas de ordem estilística. Quando a alteração é no conteúdo, existe uma consulta do editor, para evitar que sejam publicadas informações inverídicas. Nesta cobertura específica do caso Jorge Pedra não houve nenhuma alteração por parte do editor. Foi na íntegra mesmo.
H&V: Como foi a busca pelas informações de diversas fontes como a irmã do apresentador, o GGB, os empregados do Hotel Democrata, o investigador da Delegacia de Homicídios, etc?
JG: [Risos] Muita sola de sapato, paciência e prudência na abordagem dos familiares. O jornalista que quer apurar de verdade tem que usar esses artifícios. Da redação é possível fazer muita coisa, mas uma cobertura de verdade é feita “in loco”. Paciência é quesito fundamental para a obtenção de qualquer declaração de fonte e a prudência nunca é demais, principalmente em casos como esse, que envolve assassinato e a dor de uma família devido a perda de um ente querido.
H&V: A descrição de detalhes do assassinato na matéria – como “a cama ensangüentada” e o cabo da faca usada pelo homicida – é um recurso utilizado pelo jornal para prender a atenção do leitor ou é simplesmente mais uma forma pessoal de construir a matéria?
JG: Faz parte do meu estilo.
H&V: Normalmente você escreve matérias que envolvem denúncias, irregularidades e tragédias. Como é colher informações de fontes quando elas estão à flor da pele? Você se identifica com essas temáticas ou faz por imposição do veículo?
JG: Eu gosto de contar boas histórias. Rememorar fatos “pesados” é um desafio para o repórter. Afinal, é preciso muita cautela para abordar a fonte que está em situação de perda, por exemplo. Entretanto, gosto do desafio. Não é imposição, eu muitas vezes peço [risos].
H&V: Você acha que já incorporou a linha editorial do jornal?
JG: Sim. Completamente.
H&V: Você acha que o deadline prejudica a elaboração da matéria?
JG: Deadline sempre interfere na elaboração do texto, mas sem isso não tem jornal no dia seguinte, né? É um mal necessário.
H&V: Você tem dimensão da responsabilidade que possui ao construir realidades, informar o leitor e também formar opiniões? Como você encara isso?
JG: Qualquer profissão tem suas responsabilidades. No caso do jornalista isso vai além: é questão de respeito com a sociedade, com as pessoas que terão acesso às informações. Encaro com tranqüilidade, pois faço meu trabalho com rigor de apuração. Acho que é assim que todos nós devemos nos comportar.
