“Saímos de uma tiragem de 13 mil, já estamos em 25 mil”

alan lima

Alan Lima

Por Ana Carolina Andrade, Letícia Andrade e Mab

Jornalista do Correio desde 2007, Alan Lima divide seu tempo entre a coordenação de esporte da TVE e a editoria de economia do Correio*. Já trabalhou em diversos meios: desde a TV Aratu, passando pela Rádio Metrópole, até a TV Camaçari. Foi também aluno da FACOM, onde foi indicado  pelo seu professor Emiliano José, para trabalhar no Jornal da Bahia, iniciando a carreia jornalística antes mesmo de se formar. Alan nos concedeu essa entrevista prontamente, mostrando sempre disposição e bom humor.

Primeiramente, como começou sua carreira de jornalista e há quanto tempo você trabalha aqui?

Alan – Comecei como jornalista em 92 no Jornal da Bahia, num domingo, 14 de junho de 1992. Já tinha estagiado na Embasa, estágio que eu não cheguei a concluir. Estava fazendo um trabalho de faculdade na FACOM com a história do jornal da Bahia e, após o trabalho, o editor da época, Wander Prata, pediu para nosso professor, o hoje deputado Emiliano José, que indicasse cinco alunos para estagiar no jornal e eu estava entre esses cinco. Em 92 eu ainda não era formado, me formei em maio de 93. De lá pra cá, trabalhei no Jornal da Bahia até final de 93 ou 94 quando ele fechou. E ainda em 93 eu ingressei no Bahia Hoje, jornal criado naquele ano e que durou até 97. Em 97 o jornal acabou e eu passei para a televisão. Fui para a TV Bandeirantes, até então sempre como repórter. Na TV Bandeirantes eu comecei a editar, além de fazer as reportagens do programa de esporte. Comecei com esporte em 92. Em 97, eu passei pra Band e continuei com o programa de Bobô e, em 99, eu saí da Bandeirantes e fui pra TV Camaçari. Lá eu fazia tanto esporte como geral. Comecei a apresentar, eu já fazia reportagem e edição, passei a apresentar lá em Camaçari e retornei para a TV Aratu em 2000. Em 2000 eu comecei a conciliar os dois e em 2001,2002 eu me fixei só na Aratu. Depois tive uma interrupção na minha carreira por conta de uma cirurgia no joelho. Fiquei dez meses afastado e quando retornei, eu não fiz mais vídeo. Passei a fazer só edição, saí da tela. Nesse meio tempo, também com esporte, trabalhei na Rádio Metrópole, Salvador FM, Transamérica, 104… Sempre com esporte. Em 2007, eu retornei para o meio impresso, aqui no Correio, fiquei até julho do ano passado [2008]. Por conta da transição do nosso modelo de jornal, eu estava sendo muito exigido e não tinha como conciliar para a TV Aratu. Então, eu pedi demissão e fiquei só na Aratu. Esse ano eu fiz o inverso: pedi demissão do SBT Brasil e voltei pro Correio a convite. Há cerca de dois meses estou conciliando o Correio com a coordenação de esporte da TVE. No Correio eu sou repórter de Economia. Voltei pro Correio em abril e comecei na TVE em setembro.

O que é que sua rotina exige? Você recebe a pauta logo cedo, recebe outra durante o processo… Como funciona?

Alan- Então, aqui a gente tem uma divisão básica que é a das editorias. Cada uma tem mais ou menos vida própria. Temos o Vida, que é cultura e variedades, o Bazar, que é semanal, de moda, decoração e etc, o Esporte, que também tem um funcionamento separado. Agora, a cobertura de Bahia está dividida entre 24hrs e Mais*. O Mais* é aquele espaço onde tem de três a quatro matérias diárias mais aprofundadas. É onde há espaço para a reportagem mesmo. Os assuntos que não têm um volume de informação ou expressividade em termo de manchete pra sustentar uma página dupla [as matérias do Mais* são sempre em página dupla], eles vão para o 24h* como registro. Dentro dessa divisão de Mais* e 24h*, existe a equipe de Bahia coordenada por José Bezerra, que cuida basicamente de política, cidades, manifestações, tudo que acontece mesmo de factual, e a equipe onde eu estou, que cuida de economia e política, além de fechar as seções de Brasil e Mundo. Mas às vezes pegamos outras matérias. Aquela matéria de atirador de elite que matou um seqüestrador no Rio de Janeiro, quer dizer, é Brasil, e eu fiz. A gente tenta repercutir com alguém daqui, com um especialista local para trazer um olhar mais próximo. Já fiz inclusive uma página A3 de Miss Universo, que a gente decidiu que valia uma página A3, porque a Venezuela está ganhando todos, um atrás do outro. Então, fui pesquisar, já que é basicamente uma matéria de pesquisa (essas matérias de Mundo e de Brasil) e às vezes tem um especialista local para ouvir e, às veze,s não. Fiz uma matéria em cima da indústria de miss que se formou na Venezuela. Eles realmente criaram uma estrutura que eles, no mínimo, nos últimos 10 anos, chegaram entre os cinco.

O que é que define a página A3?

Alan- A página A3 pode ser de qualquer editoria. Pode ser do Vida, se tiver algum artista em evidência, que já foi gente como Ivete Sangalo, Zeca Pagodinho, já foi de Mundo, como a Miss Venezuela, pode ser de Esporte, como na segunda-feira foi uma foto dos torcedores do Bahia aliviados porque o time escapou da série C [risos]. A página A3 é o destaque do 24hrs. Entre as notícias do dia é a que teve maior repercussão. Mas, para ser a A3, tem que ter uma boa foto, porque a A3 é basicamente visual. Metade da página, no mínimo, é foto. Isso quando não tem outras duas fotos como na edição de hoje, quarta-feira, 25 de novembro. As matérias de 24h* normalmente não chegam a uma lauda. As do Mais* chegam, ultrapassam. A divisão é basicamente essa. A A3 normalmente é o factual do dia, o que tem de mais quente com uma boa imagem. O factual que só sai em registro, por exemplo, “saiu o resultado da cesta básica”, tem alguma repercussão? Algum produto se destacou? Então é 24hrs. Dá pra desenvolver uma reportagem, dá pra enveredar por uma análise mais crítica? Vira Mais*. Isso é definido cinco horas da tarde.

Até cinco horas é o limite?

Alan- É. São duas reuniões diárias. Até bem pouco tempo, antes de ir pra TV, eu participava da reunião de abertura. Eu era o representante da minha editoria na reunião de abertura, que acontece às 10 horas da manhã. Nessa reunião, a gente traz para o editor-chefe a leitura dos jornais concorrentes para saber se nós tomamos furo e as apostas do dia. Esse critério de apostas a gente aprimorou há alguns meses com a chegada do novo editor-chefe, Sergio Costa. O que é que acontecia antes? A gente sentava com a equipe reduzida que nós temos e cobria o máximo de assuntos. Isso não funcionava. Então, nós decidimos que nós apostamos nas nossas pautas. A gente bota na mesa – “Está acontecendo isso, isso e mais aquilo” e, em consenso, todas as editorias participam de todas as pautas e opinam. “-Acho legal fazer isso, acho que isso não vale tanto” e daí sai um consenso do que vai ser feito no dia. Já sai com uma indicação do que vai ser Mais* e do que vai ser 24h*, mas ao longo do dia, de 10 da manhã até cinco da tarde, tudo pode mudar. Pra Band News muda em 20 minutos, então em sete horas imagine o quanto não muda [risos]. Às cinco da tarde, tem uma nova reunião com os editores fechadores, que já são outros editores. O elo de ligação é justamente o editor-chefe e o secretário de redação, Paulo Leandro, que participaram da reunião da manhã e à tarde recebem o feedback do que foi feito e do que surgiu nesse intervalo. Matérias que eram Mais* de repente viram 24h*. Matérias que ninguém nem falou de manhã podem ser a manchete do jornal, como o caso da menina do Colégio Militar que foi encontrada na piscina. A gente não sabia disso 10 horas da manhã e virou manchete do jornal. Muda tudo. Aí você pega o que puder jogar pra outro dia e joga pra outro dia. O que puder repaginar, diminuir, aumentar. A idéia é ser o mais “quente” possível.

Qual seria a principal proposta/aposta do Correio?

Alan- A proposta do Correio* com a mudança é ser um jornal popular. O fato de custar um real sinaliza justamente isso. O formato também é mais fácil de carregar, é um jornal que não existia aqui nesse formato menor. Não escondemos de ninguém que estamos escrevendo para atingir um público que não lia jornal antes. A gente não está tentando tirar público de ninguém, não vou citar concorrência. O jornal que nós fazemos hoje cresce em índices superiores a qualquer outro jornal do país. Nós saímos numa tiragem de 13 mil no ano passado e já estamos em quase 25 [mil]. O Correio está garimpando novos leitores, gente que não lia jornal, porque não era acessível, tanto financeiramente quanto no conteúdo, e o grande desafio do Correio hoje é fazer um jornal que prenda a atenção do leitor. Isso é um desafio do jornalismo mundial hoje. O jornal impresso é uma coisa em desuso, qualquer pessoa hoje acessa a internet e sabe tudo que precisa saber. Então, a idéia é você trazer pro jornal uma abordagem que desperte a atenção do leitor, se valendo ao máximo da imagem. A gente valoriza muito a imagem, textos curtos, fáceis de entender, com uma linguagem próxima da nossa realidade. Você vê que o Correio*, às vezes, até abusa um pouco dos termos mais populares e mais informais. A idéia é essa, é estar próximo desse leitor, agora mantendo e respeitando aquela linha divisória que, às vezes, é muito difícil de identificar entre o popular e o popularesco. Tentamos nos manter dentro da linha popular, mas com responsabilidade.

O fato da matéria sobre o Crack e o caso de Itaparica terem saído com frequência quer dizer o quê?

Alan - Quando uma notícia ganha repercussão, o jornal vende mais. Tem algumas coisas que realmente surpreendem a gente, mas que se dá resultado, a gente tem que desdobrar. Alguns fatos interessantes, por exemplo, que já foram comentados na reunião: quando a gente colocou um pôster de Léo, do Parangolé, o jornal esgotou. Então, a gente investiu nisso e fez um ensaio fotográfico. Depois vieram as delegatas e depois os policiais rodoviários, a perfeita. Nós sempre temos algum destaque, assim, com esse enfoque, com alguém de sucesso, que tem uma atuação reconhecida, mas que também é bonito e desperta esse tipo de visão no leitor.

Isso tem a ver com a aposta do dia?

Alan- Não. A aposta do dia tem mais a ver com o factual, com o que está acontecendo. Mas essas sugestões são colocadas em reunião. No dia que dá pra fazer, a gente faz. “-Olha, Léo vendeu bem, quem é o outro bonitão do pagode, com quem é que a gente pode fazer? Ah, vamos ver mais um cara que tem um fã-clube legal. Ah, não deu, aconteceu alguma coisa, então deixa isso aqui pra depois”. Outra coisa que a gente tem investido bastante: o jornal não tem sucursais (escritórios no interior, representação nas principais cidades, que é normalmente o que se espera). Mas, por exemplo, a gente começou a circular em Feira de Santana e tem vendido muito. Não sobra um jornal. Então, temos investido muito. Volta e meia mandamos um repórter pra passar uma semana em Feira. Normalmente ele vai e produz. Ele já produziu matérias nos cabarés de Feira de Santana, com os acidentes de moto que matam muita gente… Toda vez que a gente sai em Feira, o jornal roda com a página diferente. Imprimem uma capa para Feira. Essa é uma estratégia do jornal para garimpar leitores, ou seja, em Feira de Santana a gente também não tinha nenhum leitor porque a gente não circulava lá. Então, quem está comprando o jornal em Feira, não lia o jornal antes. Não vamos acreditar também que a pessoa deixou de ler um jornal concorrente pra ler o Correio* na primeira vez que viu. Não. O fato é que o jornal atinge um outro público, tanto que existem rumores de que a concorrência planeja um jornal popular, mais barato ainda que o nosso, 50 centavos. Isso é uma resposta ao crescimento do Correio*. O fato do Correio* ter colocado pra vender nas sinaleiras, com aqueles garotinhos uniformizados e preço ser R$ 1 é uma alavanca.

Isso não gera um pouco de problema publicitário? Não há um problema de faturamento?

Alan- Veja bem, você botar o jornal a R$ 1, R$ 2,ou R$ 3, o preço que você paga no jornal não paga o papel. O papel do jornal é importado. A impressão do jornal é cara. Então, o preço do jornal, na verdade, é simbólico. O que vale mesmo, que é que os grandes jornais fazem, é trabalhar com assinaturas e produtos associados, coisa que o Correio* também faz. O que sustenta o jornal é a publicidade. O anunciante quer público. Se você vende 22 mil jornais por dia, e você sabe que o seu público é C, D e E, o anunciante de varejo, o anunciante desse público que compra de carnê, por exemplo, sabe que ali ele vai anunciar e obter mais retorno. A estratégia é: aumentar o público e ganhar na publicidade. O preço é simbólico. R$ 1 não paga, como R$ 2 também não pagaria.

Existe uma linha editorial própria do Correio*?

Alan- Existe. Essa linha é mais voltada pra a população de classe C e D, mas isso não quer dizer que a gente faça um jornalismo rasteiro. A mesma notícia que você dá para o grupo A e B, você pode dar para o público C e D com outra abordagem. Por exemplo, na área de economia, que é onde estou incorporado atualmente, temos uma notícia da redução de IPI para a linha branca. Isso vai representar um impasse de X por cento nas vendas, vai precisar comprar tantos por cento mais barato… O cara que ganha dois salários mínimos quer saber: o que é que eu ganho com isso? Nossa linha de cobertura em economia é mais na direção de “seu bolso”. Redução de IPI, ok, e quanto custa aquela cadeira que o cara quer comprar no natal? Em quantas vezes ele pode parcelar? Ou se pagar à vista, ele tem vantagens? A gente vê como divide, compara preços, bota um quadrinho ali, ouve um especialista… Essa é a nossa linha. O que em outro lugar seria a notícia pura e simples, boa pra indústria e pra quem entende de economia, mas pra o leitor, que vai comprar uma geladeira no carnê, o que é que muda na vida? A idéia é essa: traduzir para o leitor médio qual o impacto da notícia na vida dele.

É sempre voltado então para o interesse do público, não é?

Alan- Isso, público. De uma camada mais popular de leitor.

Percebemos que o tema mais freqüente, ou pelo menos o que mais sai na capa do Correio* é a questão da violência. É como se isso marcasse o jornal. Traz uma idéia de que o Correio vai trazer sempre uma notícia de violência na capa, com umas cores fortes, como vermelho e preto, para chamar bastante atenção.

Alan - É. Aí são alguns fatores que precisam ser abordados. A questão gráfica no novo projeto editorial deu liberdade ao Correio*. Nós podemos mudar a cor do nome do jornal, nós podemos mudar a posição, o nome pode vir em cima, do lado ou embaixo, onde a gente quiser.

A exemplo da capa dos aviões, que veio do lado, não foi?

Alan- Isso, isso. Então essa liberdade gráfica possibilita a gente mexer com as cores e notadamente quando você bota uma tarja preta deste tamanho no jornal, você chama atenção. A violência tem sido, nos últimos anos, um tema recorrente no estado. É um dos pontos chaves da atual gestão. Nosso interesse é noticiar o que está acontecendo e existe um aumento da violência no estado. É inegável. Jornais populares sempre se valeram de manchetes policiais para vender, porque esporte e polícia vendem. Isso também é inegável. Temos, dentro da nossa equipe, alguns repórteres com boas fontes e especializados nesse tipo de cobertura. Então, quando alguma coisa acontece, a gente procura logo ver se tem história. Não noticiamos qualquer morte. Isso eu digo por que nos fins de semana eu assumo a chefia de reportagem. A primeira coisa que a gente faz de manhã é fazer a ronda. Liga pra polícia, vê quem morreu, quantos morreram… Mortes isoladas a gente não cobre. Agora, morreu um cara, invadiram a casa dele, metralharam ele todo, ele tinha uma filhinha pequena… Quer dizer, isso tem uma história. Se tem história, vamos investir. Pode ser um Mais*. E se tiver realmente uma boa história, fatalmente vai ser um Mais*. A história toca nas pessoas. Esse público que a gente trabalha é um público que mora nesses lugares desassistidos e que morre de medo quando vê o carro da polícia chegar, quando houve um tiro pipocar no meio da noite. Essas histórias tocam e têm a ver com a vida deles.

Isso aproxima, não é?

Exatamente. É a idéia de aproximação do leitor. Sempre priorizamos o aspecto local.

Como no caso de Economia, que você acabou de citar.

Exatamente. É uma coisa que ele vê na vida dele. Ele sabe que em algumas incursões a polícia mata indiscriminadamente, acontece, já aconteceu e vai continuar acontecendo. É a idéia de você morar no bairro errado. Está lá uma gang e a polícia está atrás de determinadas pessoas e um inocente sobra. Isso já aconteceu várias vezes. Mas quando acontece pra gente é mais uma notícia, mas, pra eles que moram, é um filho perdido, um amigo, um parente… E quando levantamos essa notícia, trazemos pra perto das pessoas que vivem esse drama na pele.

Aconteceu também um enquadramento maior com a matéria do crack, tema que os outros jornais não abordaram.

É, aí vem a questão do furo, que é muito valorizado na atual gestão. Quando conseguimos uma notícia que é uma manchete e essa manchete dá resultado, procuramos repercuti-la ao máximo. Enquanto houver desdobramento, vamos tentar repercutir. Agora, ela vai perdendo força com o passar do tempo. Uma manchete sai dois dias seguidos, depois ela está num cantinho na capa, depois ela não está na capa, está só dentro, até que ela morre. Essa questão do crack foi um investimento que o jornal fez, com uma reportagem investigativa. Colocamos um repórter do alto de um prédio e tivemos os primeiros flagrantes fotográficos. Depois mandamos nosso repórter para locais perigosos. Ele chegou até a ser ameaçado. Mas nós conseguimos bons depoimentos e boas fotos. Quando você faz um material desse, não adianta a concorrência correr atrás. Como já aconteceu com a gente também. Já aconteceu de o concorrente trazer uma coisa forte, a gente trazer pra reunião e dizer “-Não, eles já deram. Não vamos conseguir dar melhor do que eles”. Nesse caso não existe um factual, não aconteceu nada, não teve nenhuma apreensão de crack, ninguém morreu. Fizemos uma matéria sobre o consumo de crack no Centro Histórico, que é uma coisa visível,. Mas quando você mergulha no tema você consegue boas histórias. Aí a gente deu primeiro, ninguém vai dar.Temos que aproveitar isso. Se você sai na frente, você tem que capitalizar o máximo esse furo, porque a pessoa que leu o primeiro e gostou, vai ler amanhã, vai ler depois… [risos] E o que não falta é história de crack.

É como se fosse uma novela.

É mais ou menos a lógica da novela: você fica esperando o próximo capítulo. Como foi o caso do Enem. Tínhamos uma coleção voltada para o Enem e um repórter especializado em Enem, que é Felipe Amorim, que fez sinopse de livros que caem no Enem, entrevistou professores de cada disciplina pra dar dicas e etc. Tudo o que é possível falar de Enem, Felipe já falou. Ele sentiu um alívio muito grande nesse final de semana porque o Enem vai ser realizado e ele não vai ter mais que falar de Enem. A “continuidade” é um tipo de estratégia que a gente usa, porque se um estudante que compra o jornal e vê que ali tem dicas legais pra ele fazer a prova do enem, ele quer ler amanhã e depois. Ele pesquisou livros, ouviu especialistas, até chamam ele atualmente de Mister Enem. É um tipo de investida que vale à pena, quando você coloca alguém pra se especializar no tema, ou seja, se qualquer outro jornal for querer fazer algo parecido vai ter que correr atrás, porque a gente já tem uma cara fazendo isso há muito tempo, então ele domina o tema.

E ele já estava com esse tema desde a fraude?

Estava com o tema antes mesmo da fraude.

E foi ele quem cobriu a fraude?

Foi ele, comigo. No dia da fraude, Linda [Linda Bezerra], a chefe de reportagens local, me requisitou pra fazer a cobertura. Tínhamos um plano de cobertura e o Mais* foi todo sobre essa fraude. Como Felipe já tinha feito várias matérias, ele sabia quais as faculdades que aceitam o Enem, quais as faculdades que possuem cotas pelo Enem e etc. Então eu e ele dividimos: ele fez mais a parte educacional (“como é que fica minha preparação pro enem?”), e eu cuidei das faculdades (“vão adiar o vestibular, não vão, vão aceitar o Enem e esperar o resultado?”). Então dividimos e fizemos a matéria juntos. Ele já vinha fazendo a matéria sobre o Enem desde antes, para a semana em que ocorreu a fraude. Na verdade, quando o Enem foi adiado, Felipe quase teve um troço, porque seriam mais algumas semanas para poder falar sobre o Enem, e ele já tinha feito tudo sobre preparação pro Enem! Mas, enfim, foi um assunto que rendeu bastante. Acho que aí, tanto na denúncia quanto no serviço, a gente presta um serviço legal mesmo. De um lado você ajuda as pessoas a se prepararem para um concurso que pode abrir uma vaga na faculdade, e de outro você coloca em debate um tema que aflige muitas pessoas, como o crack. Então, são várias formas de você chegar ao leitor com informação próxima da realidade dele

Esse debate intenso sobre o Enem não termina tomando o lugar de outras matérias também importantes? Como vocês fazem para selecionar?

Esse peso é dado na reunião de 5 horas, quando se define qual o espaço que cada matéria vai ocupar. Mas, por exemplo, numa matéria como o Enem, você não pode chegar num dia e não sair, ou sair no 24h*, porque a pessoa não vai entender. Quando estávamos com a coleção do Enem, tínhamos fascículos com testes que eram respondidos no dia seguinte. Por um erro da editora de quem a gente comprou esse tipo de material, teve um que não saiu no fascículo seguinte, e isso quase não me atrapalhou na redação (sendo irônico).  Choveu ligação perguntando cadê a resposta do fascículo anterior. O povo queria corrigir. Quando você cria algo assim todo dia, você não pode abortar. Mas o jornal é muito flexível em relação a isso. Quando tem assuntos demais e páginas de menos e um dos assuntos é o Enem, aumenta-se o número de páginas do jornal. O jornal roda normalmente com trinta e duas páginas, mas tem dia que roda com quarenta. Ou por determinação de comercial, excesso de anúncio, ou porque a gente precisa de mais espaço mesmo. Aí é a batalha de editor pra editor: o editor vem aqui e defende isso aqui tem que ser Mais*. Aí, eles conversam, uma das duas matérias vai ter que cair. Se os dois forem convincentes e disseram que as duas têm que ser Mais*, eles conversam e decidem se vão abrir mais quatro páginas, porque não podem pular de trinta e dois pra trinta e três, só se pode pular de quatro em quatro. Ah, se não tem anúncio pra preencher as quatro páginas e a matéria só tem duas páginas, bota calhau. Calhau é aquela publicidade institucional.

Nossa próxima pergunta era justamente sobre isso.

É. Aí coloca um anúncio da Rede Bahia, bota um anúncio do Festival de Verão, qualquer coisa que seja da casa. O importante é que a matéria saia. Você não vai deixar de dar uma matéria legal, que tem peso, por causa de duas páginas. Como só aumentamos de quatro em quatro e a matéria só tem duas páginas, as outras duas você preenche com calhau, que é o famoso “tapa buraco”. Mas um calhau publicitário, porque a casa tem vários braços, tem rádio tem TV, tem internet, tem eventos… Então a podemos preencher com qualquer uma dessas possibilidades. A gente pode colocar um anúncio da novela…(risos). Agora tapa buraco em forma de matéria não.

E no caso de faltar notícia? Isso acontece?

Não, porque a gente tem essa liberdade gráfica. Por exemplo, digamos que a matéria não rendeu o suficiente, que já aconteceu comigo. Uma matéria pra Mais*: eu tenho duas páginas limpas e eu só enchi uma e meia. Eu posso abrir uma foto, posso botar uma ilustração, posso botar um quadro de arte, destacando algum número… Então, essa liberdade gráfica que permite a gente preencher as páginas, fica até visualmente melhor, porque você coloca imagens, coloca mais cor e não precisa escrever enrolação. Isso não acontece. Pelo contrário, sentimos mais falta de espaço para escrever. Na verdade, temos que cortar nossos textos, temos que nos adaptar a escrever menos, que é a tendência do jornalismo moderno, pra poder caber na página. É raro a gente não ter o que colocar. Normalmente, a gente pede mais espaço. E aí a solução às vezes é preencher os mezaninos. No Mais*, são aquelas noticiazinhas que vêm no alto. Esses mezaninos, normalmente, são temas ligados a sua reportagem. Se eu estou falando sobre consumidor, IPI, eu posso falar de juros, crediário, formas de parcelamento. Mas se eu tenho muito assunto e minha página não comportou, eu transformo em um texto de mezanino. Isso também pode, não é comum, mas se for pra não desperdiçar informação, pode acontecer.

No caso, parece ter sempre mais informação do que espaço. Como vocês fazem pra cortar determinada informação? Como é o corte e a edição? O que tem prioridade?

Prioridade é a essência mesmo da notícia. Ainda valem aquelas regrinhas do quando, como, onde, quem e por que, lead, sub lead. Mas o lead está sofrendo um processo de transição diferente do que aquele que a gente aprendeu na escola. Mas ainda é um parâmetro que não foi substituído totalmente. A questão de cortar o próprio texto é aquela velha história: aqui no Correio temos muita liberdade. O repórter pensa a página, escolhe a foto, dá o título… Ele praticamente entrega a página pré-editada. Mas, depois dele tem o editor. Então, ou você consegue compactar a informação ou você corre o risco do editor cortar, se você não conseguiu cortar. Mas normalmente temos que entregar a página em azul. Então, se tiver faltando, no sistema fica vermelho. Se tiver passando, ele também fica vermelho. Tem que ter exatamente o tamanho que está ali. Digamos que ficaram faltando duas linhas, então se distribui as frases e tal e ganha espaço. Às vezes estoura uma linha, aí diminui o tamanho da letra, que não é recomendável, mas a gente faz. Ou então corta mesmo, acha algum lugar pra cortar. Agora, quando é muito volume de informação, você tem que negociar. A liberdade gráfica existe, mas uma vez riscada, você tem que seguir o que está ali na pauta. Mas se vai passar muito você diminui a foto, dá um corte na foto, às vezes o texto vai em cima da foto também. Existem algumas saídas.Mas, normalmente, você tem que escrever dentro daquele espaço. Como é você mesmo que risca, você já sabe quanto você tem. Mas alguma coisa eventualmente se perde. Poderia ser um detalhe, um textinho de apoio, entendeu? Mas o principal tem que estar ali. O principal tem que estar nos dois primeiros parágrafos. Isso ainda não mudou muito, pelo menos pra mim. É aquela história: o cara que leu os dois primeiros parágrafos tem que saber do que se está tratando a matéria para decidir se ele vai ler o texto. Mas o que ele precisa saber pra se informar tem que estar no início.

Conversando com você, percebemos que o Correio* dá muita autonomia aos repórteres. Você falou que cobriu uma reportagem do Enem com Felipe Amorim, mas você trabalha também na parte de Economia.

É, nesse dia eu fui recrutado por Linda [Linda Bezerra, chefe de reportagem]. Tinha muito volume e precisava de mais gente pra cobrir. Como eu já tinha trabalhado com Linda, ela me pediu isso.

Então, cada repórter tem um núcleo, uma editoria fixa?

Tem. Até antigamente não, todo mundo era Mais*. Depois da divisão, ficaram seis repórteres em política e economia e 12, se eu não me engano, em cidade. Mas pode ocorrer de migrar também.

Se alguém precisar de ajuda na cobertura…

É, porque às vezes tem repórter que está folgando e todo tipo de situação imprevista. Mas não é comum migrar de uma editoria para outra, não. Existe a colaboração, mas não é comum migrar. Cada um cuida do seu quadrado mesmo. A idéia dessa nova gestão é que as pessoas sejam especialistas e responsáveis pelos seus temas. Se acontece alguma coisa em economia e nós não estamos sabendo, vamos ser cobrados por isso.

Até pra aprofundar mesmo.

Exato, exato. Temos até uma assessora de saúde, Carmen Vasconcelos, que tudo que acontece em saúde é com ela e tem que ser com ela. Se acontece alguma coisa de saúde, é ela que corre atrás. Se alguém mais morreu de meningite lá em Itabuna, ela tem que correr atrás.

Queremos saber dessa questão da noticiabilidade. Exemplo, se você pegar uma notícia, o que vai chamar mais atenção aquilo que é o inesperado, o insólito, uma morte de alguém relevante socialmente…?

Aí são dois aspectos. Pessoas importantes são notícia independente do que a gente pensa sobre elas, seja de que segmento for. Por exemplo, se morreu um pagodeiro. Um pagodeiro tem uma legião de fãs Independente de você achar se aquilo é bom ou não, você tem que cobrir, afinal o cara é famoso. Da outra situação que você citou, é aquilo que eu falei: se a morte tem história e tem drama, vale como notícia. Aí você não vai mostrar a morte pura e simplesmente, um homicídio simplesmente. Sim, ele foi metralhado e aí? Todo dia tem alguém metralhado em algum lugar, pode ter certeza disso. Ou: foi metralhado e a mulher estava grávida e de repente o filhinho de um ano… Então, ganha outro texto. Também acontece com frequência, mas você vai mostrar por outra óptica, de quem ficou, de quem sofreu aquela dor… Eu acho que é mais por aí.

Até usamos um exemplo lá na nossa sala sobre a morte de Michael Jackson. E aí, se morresse Michael Jackson e o vice-presidente do Brasil, quem sairia na capa, seria pelo critério de proximidade, de relevância?

Pela minha experiência, estariam os dois.

Os dois lado a lado?

Estariam lado a lado, mas possivelmente… Bom aí eu vou me contaminar pelo meu gosto pessoal. Eu não sei se seria a opinião do editor-chefe, mas na minha página os dois estariam, só que Michael Jackson em foto maior [risos], embora o drama do vice-presidente esteja sendo acompanhado por muita gente. Ele já é visto hoje como um lutador, como um herói. Coitado, ele já escapou de várias. E… A reportagem já está pronta…!

Nossa! Em off aqui…Nosso furo, hein?

Reportagens como essas sempre estão prontas. A de Jorge Amado estava, a de Dorival Caymmi estava… Não está pronta batida, mas a pesquisa já está toda feita. Porque é aquela história, você não pode esperar isso acontecer. Imagina se isso acontece num domingo, com um terço da equipe trabalhando? Daqui que você pesquise fotos, a vida do cara toda, ouça as fontes, você não consegue colocar no jornal pro dia seguinte.

Que nem a questão do apagão. Vocês saíram super na frente.

E aconteceu tarde. Esse tipo de cobertura, por exemplo, do fundador, ACM, que morreu, já tinha praticamente tudo pronto. Foi um caos aqui dentro. Eu estava no dia. Mas, assim, reuniu-se a equipe rapidamente, eu cuidei da parte de educação com umas duas repórteres, outros cuidaram de saúde, outros cuidaram de política, outros cuidaram de obras… Tudo que o senador fez na vida política dele. Então, fui eu correr atrás de todos os colégios que ele inaugurou, dos projetos educacionais, do Colégio Modelo. O pessoal de saúde, quantos hospitais ele inaugurou, em quantas cidades… Mas a pesquisa já estava feita só tinha que dividir as tarefas. Imagine se eu deixo pra pesquisar a vida de ACM no dia em que ele morre? Não dá. Lá na TV Aratu foi a mesma coisa quando Dorival Caymmi morreu. A gente deixou gravado, pronto para ir ao ar, há três meses. Quando ele morreu, estava pronto. Não dá pra esperar. É um trabalho meio de urubu. Tem que atuar, não é que a gente esteja secando a pessoa, mas você tem que otimizar seu trabalho. O que é que você vai precisar falar da pessoa? A trajetória. Então se você já pode deixar isso pronto, quando ela morrer você vai botar o quê? Você só vai atrás de como morreu e depoimentos. Aí você liga pras pessoas e “Dorival Caymmi morreu, e aí?”, “pó ele era importantíssimo pra música” você vê aí, você ouve Ivete Sangalo, ouve Gilberto Gil, algumas personalidades da música e a história é essa aí. Aí, pronto. Você tem uma história. A história foi contada, com foto,com tudo. Isso é de praxe, não foi a gente que inventou não [risos]. O de José Alencar está semi-pronto. Se bem que eu acho que agora vai demorar um pouquinho, mas teve um fim de semana que era quase certo que ele ia morrer. Ele voltou pro hospital às pressas, lembra? Foi numa sexta-feira. Aí o pessoal do plantão disse “olha, esse cara vai morrer no sábado ou no domingo”. Aí despejem um material, preparem isso aqui, deixem tudo pré-editado. Se ele morrer está pronto. É chato dizer isso, mas se ele morrer… Faz parte do trabalho [risos].

Você passou por vários veículos de comunicação. Quando você muda, existe alguma dificuldade em se adequar à linha editorial?

Você sente a diferença, mas a adaptação é rápida. Por exemplo, em alguns jornais você escreve mais, aqui no Correio* você escreve menos. A abordagem é diferente, a gente tem um público definido. Agora o fato de a gente ter um público definido ajuda muito. Quando você escreve uma coisa que não é tão acessível quanto pretendemos, o editor muda e ele te mostra. Ele diz “-Olha, esse termo aqui, o morador do subúrbio médio, com uma instrução não tão avançada, não vai ter condições de entender”. Quer dizer, são termos que você usa normalmente em um texto, mas que você vai ter que pensar, poxa, o cara que está lá em Paripe vai entender isso? Tem outra palavra pra botar? Ela é mais simples? Então, bota. Mas isso você pega até nas avaliações diárias, que o secretário de redação faz uma avaliação criteriosa de tudo que a gente e vai pro e-mail de todo mundo, página por página. Aí revisa, vê o que errou, a grafia, a abordagem… Até pela questão que você falou dos fatos curiosos, que chamam de faits divers. A gente valoriza e estimula muito isso, esse negócio de fatos curiosos. Às vezes não tem texto nenhum, não apurou nada, mas é uma foto de um cavalo no meio da rua, ah, vamos botar lá “um cavalo passeava ontem pelas ruas da Federação”. Tem a foto do leitor… Isso tudo é muito valorizado. O jornal tem a pretensão de estimular a interatividade. Temos um site e a tendência desse site é que o conteúdo seja cada vez integrado ao conteúdo do Correio*. Deve ser uma ferramenta para nos aproximar mais ainda do leitor. Estimulamos que o leitor mande foto, mande texto, mande sugestão de pauta. A gente publica as cartas, responde quando eles escrevem para se queixar ou sugerir alguma coisa. Então, tudo isso pra gente é positivo.

É por osmose,então?

É. Por exemplo, de manhã eu estou na TVE. Eu sei que a TVE é uma emissora do estado, existem certos temas que eu não posso tratar lá, porque vão contra ao estado. Assim como aqui também você tem que ter esses parâmetros. Então você vai pegando no dia-a-dia mesmo, mas não existe um choque muito grande, pra dizer que eu escrevi e mandaram reescrever o texto todo. Não, também já é demais. Você pode ter um enfoque diferente, em vez de comentar assim, você comenta assado, bote logo essa história em cima. Às vezes o cara começa a dizer “- Ontem não sei o quê foi, matou e etc. Aí no segundo parágrafo “fulano de tal”, que é o morto, “estava atravessando a rua. Ele ia encontrar com a esposa que estava no shopping fazendo compras com a filhinha de quatro anos”. Quer dizer, o que fica mais forte, dizer que um carro atropelou o cara e ele morreu? Quer dizer, isso acontece mil vezes, ou dizer que o cara estava indo ao encontro da família quando foi atropelado por um carro.

Toca mais no leitor.

Pois é. Então “o rapaz saiu do trabalho e estava atravessando a rua a poucos passos de encontrar sua filha e sua esposa no shopping, veio um carro em alta velocidade…”. Quer dizer, uma mesma notícia, mas você pode contar de formas diferentes. Pra quem começou a ler, vai se interessar por essa história. Podia ser ele, podia ser eu. Agora “um carro atropelou alguém em frente ao Iguatemi e esse alguém morreu”. Quantas vezes isso já aconteceu? Agora se você disser que era um alguém, que tinha uma mulher, que tinha uma filha e que a filha tava na porta do shopping esperando ele chegar e que por causa de 100 m ele não conseguiu encontrar a filha já ganha outro peso. Então, num jornal popular a gente busca isso.

Se existisse, por exemplo, uma morte dramática num bairro popular também contando a história de uma família e uma tragédia num bairro nobre… Como seria a ênfase? Existiria uma preferência?

Como notícia, como drama humano não muda muita coisa porque a família que está lá na Barra, por mais que more num condomínio de luxo vai sentir a mesma dor de quem perde um filho em qualquer lugar do mundo. Agora, é mais comum a gente fazer esse tipo de história no bairro popular, que acontece mais, agora no bairro nobre também tem essa conotação. Agora é lógico que entra um outro componente, que também não podemos ser hipócritas. Quando acontece num bairro nobre, vem logo o questionamento “- Pô, se tá acontecendo num bairro nobre, imagine o que não tá acontecendo num bairro periférico”. Como da mesma forma a gente abordou a questão da segurança privada: se vocês acompanharam as matérias de segurança, sabem que os porteiros têm ligação direta com a polícia, sistema direto de comunicação. Os condomínios têm um sistema integrado de rádio.Se o porteiro de um condomínio vê alguém suspeito ou desconfia que alguém ta planejando algum assalto por perto, ele comunica diretamente a polícia e a polícia aciona uma viatura. Choveu carta pra gente aqui dizendo “-Ah, eu moro no Nordeste de Amaralina, se eu mandar um telefonema, ninguém vem aqui na minha rua”, mas se for um condomínio da Barra aí dizendo “ah, tem um cara suspeito aqui na minha porta” aí a viatura aparece. E ele tem um rádio diretamente com a polícia, então o tratamento é diferente. Quando acontece um caso desse na Barra ganha outro peso também por causa disso, ou seja, a violência chegou na casa dos moradores classe A. Só que com esse outro componente que é o “-Olha só, ‘acontece até na Barra’, você que mora aí em Peri-peri, em Coutos,  se os cara da Barra tão aí tomando tiro, imagine o que vai acontecer com você”. Mais ou menos a lógica que fica implícita, a gente só não coloca com esses termos.

Além da boa história também…

Lógico. O drama está presente tanto no trabalhador que saiu de casa pra comprar o leite da filha e foi morto numa abordagem policial numa troca de tiro com o traficante, como o estudante da Barra que saiu pra ir a academia. É um direito dele transitar pelo bairro que ele mora e voltar a pé, mas de repente alguém resolveu tomar o tênis que é importado dele, ele resistiu e tomou um tiro. É um drama. Não é normal a pessoa sair de casa pra ir malhar e morrer por causa de um par de tênis.

E podia ser falsificado!

[risos] Tá vendo? Já tem a ironia própria dos colegas, que só faz aperfeiçoar nas redações, viu? A gente acaba tratando os assuntos com uma certa frieza que depois espanta, mas tudo bem. E o que está no jornal é apenas 10% do que acontece na realidade, não dá pra cobrir tudo.

Vamos finalizar com a pergunta bate bola, jogo rápido: pra você, numa síntese, o que você olha e diz assim: isso daí dá notícia com certeza?

Eu acho que o que toca mais é tudo que tem a ver com família. Aí eu falo por mim. Eu sou pai, tenho filho pequeno, e o que me choca mais é notícia que envolva criança. O pai que morre, ou criança que morre de meningite, por exemplo. O que toca na família é notícia porque a família ainda é a célula mãe da sociedade. Quando mexe com alguém da sua casa, seu parente, do seu sangue, acho que não tem nada que te toque mais. O drama família ainda é o que pesa mais.