“A população tem uma ligação afetiva com a bizarrice”

Por Alexandro Mota e Luana Ribeiro

Bruno Wendell, 29 anos, soteropolitano, é graduado em Comunicação Social – Jornalismo pela Unibahia, repórter de Segurança do Correio* há três anos e meio, tendo passado pela redação da Tribuna da Bahia. Falante e bem-humorado, mostrou de forma bastante concreta os bastidores da construção da notícia e sobre a nova fase do Correio*, incluindo sua nova linha editorial, com consequentes novos critérios de noticiabilidade.

Como vocês ficam sabendo desta história ? [A entrevista foi realizada em 25/11/09. Neste dia a matéria de capa do CORREIO se tratava da denúncia de corrupção da Agerba e foi feita por Bruno Wendell]

Normalmente quando ocorrem essas operações, a gente fica sabendo através de informantes ou então alguém que liga para o jornal ou os colegas de imprensa, através da comunidade. São operações que eles usam muitas viaturas, então sempre acaba chegando pra gente.  É uma operação de fraude, um esquema de vendas de concessões de verbas estaduais, envolvendo muitos empresários, funcionários da Agerba e do alto escalão. Geralmente essas matérias são manchetes por que as pessoas envolvidas estão acima de qualquer suspeita, não é um “pé de chinelo”, são pessoas de políticos, acima de qualquer suspeita, envolvidas em escândalos bilionários e num esquema de fraude.

Neste caso da Agerba, que “vazou” a informação para toda a imprensa, como conseguir o diferencial de cobertura?

Na verdade é feito um esquema de cobertura. Ontem mesmo Jorge Gauthier acompanhou de manhã a operação e ficou no COE, para onde foram levados todos.  À tarde eu fui render ele, eu fiquei das 15h às 16h40 por que tinha coletiva do caso lá na SP. Mariana já estava lá pegando a coletiva, eu  saí de lá do COE fui para a coletiva pra fazer os bastidores, enquanto Felipe Amorim estava na 1ª vara crime pra ter acesso ao processo e Jairo Costa Júnior estava aqui na redação pra fazer a repercussão da política. Então o jornal não sai só com a prisão da operação. A gente sai com algo a mais, algo que é o diferencial do jornal. Por que o jornal compete com outros veículos, óbvio que compete com outros jornais, mas compete com a internet, com a televisão… O que exige algo a mais.  O telespectador vai ter a informação mais visual, na internet as coisas têm que ser rápido só que o jornal ele tem por obrigação de levar mais conteúdo para o leitor, é o nosso diferencial. Não podemos, por exemplo, “houve a prisão…” e a gente vai dar a prisão. A  internet vai estar dando isso direto, a televisão vai abrir com isso, a gente tem que vir com um algo a mais.  Que é a questão política, que é a questão dos bastidores, correr atrás de outras coisas, com escutas telefônicas, imagens de prisões, esses detalhes que a TV e a internet não bolem, não têm acesso por conta do instantâneo.

Quando você está escrevendo, qual a imagem que você faz do público do CORREIO? Quem são esses leitores?

O público do Correio*? [risos] Você tem um jornal que é de R$1. Vamos pensar assim: foi feito uma pesquisa de que, a cada dez baianos, cinco compram jornal, desses cinco você tem Correio*, A Tarde… Entra a questão da concorrência. A outra metade não tinha acesso ao jornal por N fatores, um deles é o valor. Hoje muitos estudantes do segundo grau lêem o correio por que custa R$1. Quer dizer, as pessoas têm acesso ao Correio*  por conta do preço, não liam antes. Já tinha aquele problema do estigma do carlismo. Fizemos todo um trabalho pra tentar desconstruir essa imagem. Temos também um público hoje do jornal pelas capas, pelas matérias. O jornal tem enfatizado muito serviço e também a questão da violência. O público está variado, mas está mais para C e D.

O que mudou com a reforma ocorrida há cerca de um ano e meio? (Bruno Wendell trabalha no CORREIO há três anos e meio.)

Sei onde vocês querem chegar… Alguns assuntos que antes a gente não podia veicular, por causa de uma questão que todo jornal, toda TV, toda rádio tem a sua linha política. Hoje em dia está mais fácil de fazer um trabalho de você poder divulgar e falar, que é a proposta do jornal, e tentar ser o máximo possível imparcial. Se bem que não existe isso, porque todo veiculo de comunicação segue a interesses. Isso é o CORREIO, o A Tarde, Tribuna,  a TV Bahia, A Record, Globo, Sbt… Todos têm. Um mais do que os outros.

E fora a questão política, e as questões de exigências, rotinas de produção mesmo, não organizacional, mas de produção?

O nome, o logo não é fixo. Ele brinca com a capa.Porque no jornal antigo o nosso texto era um texto “massudo”, não podia brincar com o texto, era aquele texto já batido.  Hoje o jornal quer se aproximar mais do leitor, ele brinca com a capa, o logo do jornal pode estar em diferentes posições. Tudo isso para aproximar o leitor e os textos também tem que ser assim. O leitor vê “oh, essa senhora aqui, de tantos anos, sofreu disso e disso… oh, parece muito com a minha vida…”. Então aproxima o leitor da situação, do problema.

Mal-estar com a publicidade?

Acontece muito isso, você está com aquela matéria que você diz assim “essa é a matéria”, cheia de informação, você faz o seu texto na hora que você bate, chegada na hora entra o anúncio  no meio da página. Aí você tem que pegar o seu texto e cortar o máximo possível. Na verdade o jornal não vive sem publicidade, isso é fato. O anúncio é importante e a gente tem que adequar,não pode dizer “Olhe, minha matéria tem cinco laudas e não vai entrar anúncio”. Chegou um anúncio a gente tem que tirar as gorduras do texto, não dá? Joga no “meza”(notas de topo), joga uma abertura “no 24”(24h) e o restante vem para o “Mais”, quando não tem mais jeito algum aí agente corta. Claro que não vai cortar tirando as informações essenciais, não vai cortar o que você acha relevante.

Casos de cair a matéria por causa do anúncio?

Já.

Mas o que norteia essa idéia do que é mais importante?

Geralmente o que acontece dessas matérias que caem são matérias frias,  quando é matéria do dia dá-se um jeito. Abre mais páginas, joga o calhau. Ou então pega outro assunto e tenta aquilo que poderia ir para o “24h”.  Pede ao repórter para ligar para outras fontes, tentar render mais o assunto. Como exemplo dessas matérias frias é uma que vai sair agora no domingo, minha e do Bruno Villa, por que não vai sair nessa matéria agora, que fala da morte de um policial, que foi reconhecido, o cara é um atirador de elite e aí a gente tem uma matéria perfeita. Que não saiu agora mais vai sair no próximo domingo, é uma matéria fria, pode sair a qualquer momento. Mas capital em hipótese alguma você pode deixar de lado. As matérias de capital têm que ser dadas, até por que o leitor vai cobrar no dia seguinte. Se ele não vê no CORREIO, ele ver no A Tarde ou na Tribuna, ele já vai ver na internet, já vai ver no jornal da noite. Então no dia seguinte, ele vai cobrar isso do jornal. Ele vai dizer “poxa o CORREIO não deu  isso aqui, mas essa matéria é boa”. Ele está no pensamento do que aconteceu ontem e ele vai querer isso no jornal. Mais detalhes, o público procura isso, mais detalhes no jornal.

Percebemos que o CORREIO tem uma quantidade de matérias sobre violência maior que os outros jornais.

Você acha que isso é reflexo de uma cidade que realmente é violenta ou é um “alarme”, uma vontade de o CORREIO priorizar isso?

Eu não digo priorizar, mas se você pega nas manchetes do jornal, todas as matérias cerca de 90% delas estão ligados a homicídios. Hoje Salvador vive realmente uma situação muito delicada. E eu mesmo sou repórter de Segurança há três anos e meio, e ano passado mesmo teve muitas chacinas varias em série. Esse ano só está diferente por conta dessas chacinas, mas tem muito homicídio, crimes contra a vida cresceu assustadoramente. Então o jornal não prioriza, ele tenta mostrar um pouco mais dessa realidade.(…) Eu, vendo como leitor… você pega o A Tarde e “Puxa, essa matéria aqui eles não deram”.Então é uma coisa editorial do jornal, de não dar algumas matérias. E olha que a gente não tem editoria de Segurança aqui no CORREIO. Porque se a gente fosse dar todos os crimes de Salvador, isso aqui (mostra páginas) não daria para encher com o mundo do crime. A gente não tem nem noção. Você liga pra Centel, Central de Telecomunicações da Polícia Militar e passam 15, 20 homicídios durante o dia. Depois você constata, com uma fonte ou outra, que foram, sei lá, 5, 10 a mais. Eu fiz uma matéria sobre os 10 mais procurados. À época, foi recorde de venda do jornal; as pessoas se interessavam pelos dez procurados porque muitas vezes conheciam alguém: “Olha, fulano aqui e tal”. As fotos estavam na capa… Hoje, é uma das edições mais vendidas do jornal e coincidência ou não, a maioria dessas capas está relacionada à violência. Porque a população tem uma ligação afetiva com a bizarrice. E se você tem um produto e sabe há uma procura por este produto, você vai repaginar. O CORREIO, em algumas situações, tem dado preferência a alguns assuntos, mas não que sejam assuntos que não precisem dar destaque – porque merece realmente dar destaque – mas a gente tem a visão de que os outros jornais preferem dar destaque por opção editorial.

Não é que a gente vá mandar corpos carbonizados na capa, porque chama atenção, porque vende. Já teve fotos aqui bizarras, a gente não deu. A gente não dá. Não é assim não.

Quanto às pautas, elas são somente passadas aos repórteres ou há espaço para discussão, participação…

Não, outro dia nosso chefe, tem pouco tempo, me chamou e a Mariana também para dar sugestão de capa, opinião…há um diálogo muito forte.Sempre tem reunião de pauta, a partir das 14h, com coisas como as matérias dos dias anteriores, da semana…Nosso ‘Cigano’, (que passava no momento) que passou aqui, secretário de redação, todo dia lê o jornal e vai pra gente sugestões e correções, elogia, e chama atenção. E há um espaço aberto, num email para todos, todos (enfatiza), a gente tem livre-arbítrio de contestar, enfim, não há uma ditadura “vai ser assim, eu quero assim”, há uma participação. Porque na realidade, o repórter é aquele que vai pra rua. Às vezes algo foi falado na reunião, o repórter estava na rua e chega com uma nova informação que ou ajuda muito na segunda reunião: “Trouxe uma informação, a respeito daquela matéria, eu acho que deveria ter um destaque maior…” e acaba sendo manchete, com um destaque maior ou então uma matéria que era pra ser manchete, quando o repórter vai checar, poxa…não rende manchete. Então há um diálogo, até o fechamento ainda há o diálogo entre repórter, editor…

Em relação a solicitação de recursos, como carro…como funciona isso no CORREIO.

(risos) Ah…por exemplo, chuva mesmo. Tem que se preparar pra se molhar mesmo, porque não tem bota, raridade é uma. Mas já foram solicitadas. A gente tem telefone celular, da empresa, hoje; são pouquíssimos minutos, mas você ligar pra um colega da redação, a tarifa é zero. Carro…carro não tem ar-condicionado. Imagine você…fui fazer uma matéria em Crisópolis e não tinha ar-condicionado. Mas segundo a direção, já vai providenciar…

E já se perdeu matéria por falta de recursos?

Não, não, não! Isso nunca! (enfático) Porque a arma do repórter é papel e caneta. Não tem por que. Papel, caneta, carro, fotógrafo.

Você citou a quantidade de homicídios, no exemplo da Centel. Como você faz pra selecionar o que é ou não notícia?

Foram dez homicídios no dia. A gente vai na delegacia, pra saber a situação “ah, foi tráfico de drogas, artigo 5º, seqüestro relâmpago, chacina…Depois vai ao IML, entrevistar os parentes, que é a tarefa mais árdua. O cara perdeu o filho, fuzilado e tal, você chega lá tem que incomodar alguém…naquele momento de desespero, você chega com toda a educação e tem que explicar muitas vezes o crime. Naquele momento, muitas vezes uns outros entendem,outros não, natural, mas o contato é mesmo com os familiares e os vizinhos. É os que fazem, dão o perfil da vítima. É aí que você começa a montar a história. Normalmente crianças, mulheres gestantes são manchete, travestis, homossexuais,crime envolvendo policiais, chacinas.

E como driblar a questão da “lei do silêncio”?

É, existe. Infelizmente o bandido muitas vezes está ali do lado, mora ali pertinho do cara, da vítima… A gente precisa convencer a pessoa a falar em off, a gente não vai dar nome, nada. Mas se não conseguir com um, vai conseguir com outro, mas a base do meu trabalho é o convencimento. Você tenta ganhar o personagem, mostrando que você não está ali pra fazer a sensação de estar estampando em televisão, mas tentar ajudar. Eu dou meus telefones às minhas fontes. Às vezes me ligam até de madrugada, e tento manter contato pra criar um vínculo. Uma fonte interessante são as associações de bairro, que têm pessoas mais preparadas e podem fazer essa ponte entre você e a comunidade.

E você recolhe mais informação na rua ou através de ligações?

Fonte, você tem que ir no local. Só consegue cativar se for lá. Eu mesmo defendo repórter “turista”. Cidade e Segurança, não adianta. Porque a fonte não vai dar uma informação preciosa pra alguém que ela não conhece, que não é de confiança. A fonte tem um interesse, por trás, então tem que ir no local, cativar a fonte.

E o caso Jorge Pedra (que Bruno Wendell estava cobrindo), como foi para descobrir as informações a mais?

Fonte! No caso Jorge Pedra, já fui me encontrar com travesti, com outros garotos de programa… e nessa coisa toda, descobri que tinha uma pessoa de quem estavam puxando rosto do retrato falado. Liguei pra uma fonte, que confirmou, “botei na parede”, ela não pode dizer que não e a gente conseguiu o retrato falado.

Então, neste caso, você se envolveu em um meio perigoso. Quando você chega lá, você se identifica como sendo repórter? Como funciona isto? Até quando a identificação atrapalha ou ajuda?

Às vezes ajuda. Você faz uma operação policial, os caras estão loucos, à flor da pele, e você se identificando, o cara pensa: “Tem imprensa ali, vamos maneirar”. Eu faço contato prévio por telefone. Mas quando há a necessidade prévia de você ocultar sua identidade, de agir na surdina, nem com carro plotado você vai. A gente tem um carro aqui, nem vou dizer a cor nem o modelo (risos), sem plotagem do CORREIO, pra você trabalhar tranqüilo. Aí você não usa crachá, conversa com um, conversa com outro, bebe uma cachacinha aqui com um, com outro e assim vai.

Então de certa forma o repórter também faz um trabalho investigativo?

Não, todo repórter é investigativo. Você não pode se dar ao luxo de ficar esperando que as informações venham até você, recolhendo só o oficial. Repórter tem que desconfiar de tudo. Quando tem um assunto, mandam um nota pra você, é óbvio que querem esconder alguma coisa, “Olha, estão mandando aqui porque é alguma merda, então corre atrás”.

Você também trabalhou no Tribuna. Qual a diferença que você sente, em relação ao CORREIO?

No Tribuna você aprende a ir a campo, a se virar, mas o texto, você aprende, você se molda aqui. No Tribuna, pega o repórter joga pra lá, “vai pra rua, se manda, traz a informação”. Você se bate, mas o editor não pode exigir muito, porque na época eu era estagiário, fazia trabalho de repórter, me desdobrava no horário, quase perdi o semestre na faculdade, não tinha muito que se cobrar, mais o empenho. No CORREIO, você tem que vir preparado, Você se molda aqui: texto, apuração. A exigência aqui é muito maior.

E o que você pensa em relação a certa desvalorização do (jornalismo) impresso, justificada por ser supostamente “ultrapassado”. Você concorda?

Eu não vejo assim. Minha frustração, na verdade é que só temos 3 jornais. Dois e meio, na realidade. Mas infelizmente. Isso prova também que as pessoas estão lendo muito pouco. Você tem aí mais emissoras de TV, rádio e dois jornais e meio, talvez do mercado de trabalho é que venha da galera um pouco de aversão, mas também tem aquela coisa do midiático, de ser “global”…o sonho, né? Que depois se torna frustração. Porque pouquíssimos chegam ao patamar que é o desejado. E se você pensa que impresso se ganha muito menos que em TV realmente ganha, mas a diferença não é tão grande assim não.