“Se descobriu finalmente que o leitor não gosta de ler”

Por Anaíra Lôbo, Marília Mariotti e Vitor Matheus

Helga Cirino é jornalista do jornal A Tarde, repórter da editoria de local. Cirino já trabalhou no Correio da Bahia e na Tribuna da Bahia, ingressando no  A Tarde em fevereiro de 2006. Formada em jornalismo pela UFBA, Helga Cirino define “a curiosidade como a válvula mestra do jornalismo”, afirma que o repórter ideal é aquele que se pauta e diz que o A Tarde está passando por uma crise de identidade e deve ter um jornal popular para concorrer com o Correio*.


Como é a rotina no recebimento de pautas, enfocando em aspectos como a liberdade na escolha dos assuntos?

Depende da editoria em que a gente trabalha. Aqui em editoria local o chefe de reportagem já entrega as pautas bem cedo para os jornalistas. Eu já trabalhei em editoria de segurança, e é um pouco diferente, você acaba “se pautando”. Segurança hoje em dia está dentro de local, não existe mais página de polícia ou página de segurança, agora é tudo local. E era um pouco diferente, o repórter setorista acabava produzindo suas próprias pautas. Aí eu chegava de manhã, fazia uma ronda, ligava pra os órgãos de polícia, delegacias, de telecomunicações, para fazer uma pré apuração do que estava acontecendo na cidade, e a partir daí eu me pautava. Fazia uma avaliação do que era mais importante e ia para a rua com um fotógrafo. Sempre dando um retorno para a redação, para a chefe de reportagem, recebendo indicações sobre a matéria,se o assunto mais importante não era outra coisa, indicações do que eles gostariam que a gente fizesse. Já na editoria local é diferente. Você recebe a pauta já pronta. A pauta maravilhosa é aquela cheia de fontes, cheia de telefones e informações. Mas nem sempre é assim. Às vezes você chega na redação e recebe como pauta um texto de duas linhas. E dessas duas linhas você acha o gancho da matéria, você faz uma pré apuração e define o que é realmente importate. Daí você vai para a rua e passa a manhã inteira dando indicação para a chefe de reportagem do que você está produzindo, volta pro jornal e bate a matéria.

Que horas mais ou menos vocês fecham a editoria de local?

Depende. Afinal, existe o horário de fechamento normal, entre nove e meia e dez horas da noite. Nesse horário o jornal tem que estar “na página”, pronto para o editor passar e mandar rodar. Mas algumas ocasiões especiais atrasam, algo que só a gente tem, uma investigação por exemplo. Aí a gente acaba atrasando a edição.

O jornalista tem algum papel na escolha das pautas, ou a decisão cabe apenas ao editor?

O jornalista, o repórter ideal, é aquele que pauta. É o repórter que chega na redação e tem o poder de observação da cidade. Quando você está na rua fazendo uma pauta é você que está investigando. O chefe de reportagem está na redação. Quem está enxergando o que está acontecendo na rua é você. Vou dar um exemplo de dois colegas da gente,
no jornal de anteontem. Eles estavam fazendo uma apuração de uma matéria especial, que não tinha nada a ver. E eles
passaram na Avenida ACM, e observaram que um gari tinha parado um carro de polícia. O que é normal, poderia ter sido uma besteira. Mas eles ficaram curiosos, e para mim a curiosidade é a vaúvula mestra do jornalismo… o jornalista tem que ser curioso. Se você não tiver curiosidade, não quiser saber das coisas, nem adianta ir para a rua fazer alguma pauta, você não vai produzir nada. E os dois colegas pararam atrás do carro da polícia e perguntaram o que estava acontecendo, se estava tudo bem. E os policiais disseram que o gari estava falando que tinha uma caixa se
mexendo, do lado de um prato de “macumba”. E os repórteres resolveram entrar no mato para investigar, e acharam um bebê recém nascido. Daí fizeram fotos, uma reportagem, entrevistaram o gari, e os próprios repórteres ligaram pra SAMU. E isso virou a matéria de aposta do jornal. Ou seja, de um pontinho do nada, surgiu uma mega matéria.

Pelo que analisamos, o jornal A Tarde tem como uma grande característica o uso de denúncias, muitos furos de reportagem. Mas na questão do apagão, o A Tarde botou  como últimas notícias, fizeram uma reportagem breve e depois aprofundaram.  Já no Correio, logo no dia seguinte, eles conseguiram divulgar a notícia já pronta, com o uso de agências de notícias. Quanto a isso, foi realmente uma escolha aprofundar quando tivesse mais dados, ou foi um furo do Correio?

Era a agência de notícia, já que a matéria era nacional e não local, que disponibilizava a notícia. O que estava para um estava para todos. Eu creio, não tenho certeza, já que quem decide isso é a chefia, que tenha sido uma escolha editorial. Não foi um furo do Correio. Como o Correio ia mandar repórteres para o Rio de Janeiro na hora do apagão? Então é a agência que manda, e ela disponibiliza a matéria para todos os veículos de comunicação. Então o que mudou foi a escolha editorial.

Um ponto importante do jornal é sua organização, seu modo de se apresentar. E uma característica do A Tarde é a questão dos cadernos, desde a organização até uma linearidade da edição. Como você analisa as escolhas de editoração de um jornal?

Eu acho que o jornalismo baiano está passando por um momento muito conturbado, um momento de “crise de identidade”. O Jornal A Tarde, há uns dois anos, passou por uma reforma. Antes você abria o jornal e via uma grande quantidade de palavras, mas hoje em dia os jornais passam por uma reformulação. Se está investindo muito mais em imagem. Se descobriu, finalmente, que o leitor não gosta de ler. Ele quer saber da notícia,se informar, mas não quer ler, não quer ter trabalho. Então a gente tem investido cada vez mais em imagens e bandeiras, os recursos gráficos de destaque. E se você tem um texto com muitas informações, você pode dividir em subtextos, distribuir em recursos gráficos, botar uma infografia, que diga através da arte aquilo que você quer dizer no texto. O Correio* investiu massissamente nisso, e mudou um pouco o público do jornal. E o A Tarde quer conquistar esse público também, mas também manter seu público atual. O Correio* custa apenas R$ 1, e apresenta uma leitura rápida. O jornal A Tarde está tendendo para isso. Existe uma proposta do A Tarde de não acabar e fazer outro jornal, como o Correio* fez, mas criar um impresso que atenda a esse público. Por exemplo, no Rio de Janeiro o que acontece é que um mesmo jornal possui duas versões, uma para o público de massa e outra para outros públicos.

A composição do público interfere diretamente na linha editorial, na escolha dos temas?
É a crise de identidade do jornal A Tarde, ele quer atender a gregos e troianos. Ele não apresenta um público específico, quer atender a todas as classes sociais. Então ele quer apresentar uma informação de qualidade, aprofundada, mas também quer vender como o Correio vende.

Os Jornais apresentam especialistas encarregados de pesquisar opinião de público?
A gente trabalha meio isolado aqui, o que eu acho um erro. O jornal deveria dialogar mais com outros setores. A redação ás vezes é um pouco alienada no cantinho dela. O que não deveria ser, já que é um órgão de comunicação, a gente trabalha com informação, deveria ter um maior diálogo.

A editoria de local apresenta uma maior proximidade com o leitor, em comparação a outros setores do jornal. Então na editoria de local você sente um maior retorno da população?
O Jornal A Tarde busca cada vez mais isso, uma proximidade com o leitor. O jornal quer que o leitor dialogue, que o leitor fale com a redação. Então há um investimento em interatividade. Quase sempre a página 4 sai com uma linha em cima de interatividade, que é a resposta do leitor sobre determinado assunto. Na parte online a gente também quer trabalhar com a interatividade. E aqui a gente tem na redação uma Central de Interatividade, que é uma equipe de jornalistas que recebem a informação, a filtram e ás vezes produzem a partir dali as matérias ou encaminham para as editorias. E eu acho que é isso, o caminho é para a interatividade, para uma conversa, um diálogo, para saber do leitor o que ele quer ler. E o Correio está fazendo muito isso, ou seja, “já que é uma notícia totalmente populesca que eles querem ler, vamos dar isso a eles”. O A Tarde ainda tenta primar ainda pela “moral e bons costumes”(risos).

Uma fator muito importante também é a questão dos critérios de noticiabilidade. Cada jornal apresenta um “enfoque”. Observamos que O Tribuna, nesses últimos tempos, abordou diversas matérias sobre a miningite e dengue. E  uma repórter, em entrevista, declararou que era devido a interesse público…

Eu acho que nesse caso foi devido, sim, a interesse público. A repórter que te falou isso estava certa. Mas nós trabalhamos em uma empresa particular, que é o jornal. A gente trabalha com interesse público, mas trabalha com interesse privado também. Nós trabalhamos com as chamadas IPs, que são as matérias de interesse do patrão. Muitas pessoas quando entram na faculdade de jornalismo acham que vão mudar o mundo, que vão denunciar, que vão lutar contra as mazelas [risos], mas não é bem isso que acontece.

Sobre a expressão política do jornal como instituição, os editores estabelecem nas pautas o que deve ser pautado, uma opinião política, uma rigidez no que é escrito?

Não. Você vai pautar o fato, apurar esse fato. Mas claro que quando se escolhe um fato, você já está orientando o que você quer daquela matéria. Por exemplo, em um trabalho de um político em uma comunidade, se ele for benéfico, você já está indicando o que quer daquela pauta, e se for maléfico acontece da mesma forma. E isso não só na parte de política. Eu canso de dizer que jornalismo ás vezes é muito cruel. Às vezes você sai da redação para provar tese. Você sai pra dizer o que o chefe de reportagem quer ouvir.Não porque tem interesse político por detrás, mas porque a gente vive da notícia, de publicar. E eles têm bem claro na cabeça o que é que vende, o que vai dar retorno para o jornal.Por exemplo, você sai da redação com a pauta sobre o aumento do roubo de carros em Salvador. Aí você volta e diz que não houve aumento do roubo de carros, teve diminuição, e que o texto irá falar isso. Mas então a editora fala “mas no lead tem que ter que o roubo ainda é muito alto”. Aí você sai pra provar tese de que Salvador é insegura, o número de roubos de carro é astronômico. Tem vários exemplos de coisas que nem é que você não concorde, é que você nao vê nas ruas. Repórter não tem que achar. Ele tem que ver, apurar e botar o que viu. O jornalista não escreve o que quer, ele deve escrever o que viu, de acordo com fontes, dados e números que comprovem.

Existe de um jornal para outro uma pesquisa na observação dos dados? Por exemplo, o Correio* tem um furo de reportagem ontem, daí o A Tarde pesquisa, apura sobre isso para publicar?

Existe, claro. A gente cansa de dizer que tanto o Correio* vive à sombra de outros jornais, como o jornal A Tarde vive à sombra de outros jornais também. No dia seguinte que sai uma matéria nos jornais, os editores cobram informações
que foram ditas em outros jornais. Então um vai estar sempre analisando o concorrente…

A concorrência também influi.

Influi demais! Influi nas pautas, no trabalho, no dia a dia. Influi na sua apuração.

Quando é que uma matéria de outra localidade da Bahia merece destaque no caderno de local?

O A Tarde é o único impresso que cobre a Bahia toda. Nós temos sucursais nos interiores, sedes que encaminham materiais para nós apurarmos naquele interior. Mas o que vai definir se a pauta de lá é mais importante
do que a pauta daqui é o fato, sempre o fato. Sempre o que vai definir o que é mais importante é o critério de
noticiabilidade. Aí você me pergunta, “o que é o critério de noticiabilidade, o fantasma do critério da noticiabilidade?”
Simplesmente é a avaliação das pessoas sobre o que elas gostam mais de ler.

Quando as matérias de gaveta devem ser acionadas?

Eu acho a matéria de gaveta uma invenção fantástica. Eu sou totalmente a favor de matérias de gaveta porque nós
não temos fatos do cotidiano fortes ao ponto de termos uma manchete, e a matéria de gaveta salva o jornal nesse
momento. Por incrível que pareca, aqui no A Tarde a gente não tem matéria de gaveta, nossa equipe é muito pequena, aí não dá pra deixar repórteres encarregados com as matérias de gaveta. Estamos sempre fazendo sobre o dia ou sobre uma investigação bombástica. Mas a gente acionaria a matéria de gaveta quando não houvesse nenhum fato importante que justificasse uma manchete.