“Os critérios [de noticiabilidade] levam em consideração o interesse do público”
Por Agnes Cajaiba, Gustavo Domingues e Tais Bichara
Um breve histórico profissional.
Carmem Vasconcelos: Eu sou graduada pela Universidade Federal da Bahia. Quando eu saí da graduação, eu trabalhei como assessora de imprensa do Conselho Regional de Odontologia, da Associação Baiana de Medicina, do Centro de Estudos e Terapia do Abuso das Drogas da UFBA, o SETAD, e depois de um ano mais ou menos trabalhando com assessoria, eu comecei a trabalhar em jornal. Vim pro Correio*, isso em 1997, e estou aqui desde então. Aqui no Correio* eu comecei como repórter da editoria de Local, depois pedi um tempo pra sair e fiz pós-graduação. Conciliar a vida de jornalista com a vida de estudante é um tanto quanto complicado e pra mim na época era inviável. Pedi pra sair, fiz pós, passei a lecionar, voltei aqui pro jornal ocupando o cargo de chefe de reportagem, trabalhei com jornalismo especializado, jornalismo científico, trabalho até hoje com jornalismo especializado, dou aula na FIB. Trabalhei com agência de publicidade um tempo, passei dois anos trabalhando numa agência de publicidade, sou especialista em relações públicas… Basicamente isso.
Então você está mais ou menos há 12 anos aqui no Correio. Como chefe de reportagem tem quanto tempo?
CV: Como chefe de reportagem… Eu assumi a chefia de reportagem em 2005, fiquei na chefia até meados do ano passado, meados do ano passado o jornal sofreu uma reestrutura total e esse cargo foi extinto. Nesse período, eu voltei pra reportagem, depois fui trabalhar como subeditora no caderno Vida, fui coordenadora do caderno Vida, voltei pra reportagem e assumi agora uma editoria, que é a editoria de Saúde.
A gente queria saber um pouco do que é a rotina de produção no jornal, principalmente com relação à editoria de local, que você já trabalhou.
CV: A rotina de produção de um jornal pra local é bem especifica. Se você me perguntar exatamente como é que as pessoas fazem pra poder trabalhar, eu vou te dizer o seguinte: geralmente as pessoas chegam aqui no jornal, quem faz a abertura chega muito cedo, dá uma vasculhada em todos os sites, lê todos os jornais locais e nacionais, pra ter uma idéia do que está acontecendo no dia. A gente costuma dizer que é fundamental fazer a ronda em serviços específicos, por exemplo, você liga pra Polícia, você liga pros Bombeiros, você liga pra Defesa Civil, enfim… Pra saber como é que está a cidade.
Quem faz esse trabalho são os próprios repórteres?
CV: Esse trabalho é desumano pra ser feito por uma pessoa só, embora ele seja feito também por uma pessoa só, mas esse trabalho é geralmente dividido. Hoje, dentro da nova organização do jornal, ele é feito da seguinte forma: Linda faz essa abertura, junto com ela o pessoal do radar (aquele pessoal que tá na salinha de vidro ali do canto). Ela faz essa ronda, digamos assim, junto com esse pessoal. Isso tem inicio por volta de 7h da manhã. Umas 8h você já tem uma idéia mais ou menos de como é que vai a cidade e é quando começam a chegar os primeiros repórteres. Chegam os primeiros repórteres, ela já tem uma idéia do que vai mandar cobrir, do que está acontecendo, ela passa as pautas para esses repórteres, esses repórteres vão nas ruas, cumprem as suas pautas, cumprem a pauta que foi determinada, voltam pra redação, discutem com ela o que apuraram e a partir daí começam a elaborar suas matérias. Isso acontece ao longo do dia. Chegam repórteres às 8 horas, às 10 horas, meio dia, 1 hora da tarde, às 2 horas da tarde… Ao longo do dia vão chegando pessoas pra começar suas rotinas de trabalho e elas vão pegando as pautas que lhe são passadas pra que comece a trabalhar. Aqui, na rotina de jornal como um todo, essa é a rotina de Local. Às 10h há uma primeira reunião, onde as apostas do dia, o que é colocado, digamos assim, pra que transformem em matéria, elas são discutidas com os super desk, os coordenadores, que são essas pessoas que sentam ai nessa área um pouco mais elevada. Essas apostas são discutidas, é pensado em novo viés, em novo gancho em novo recorte pra matéria, ou é aprovado o corte que foi dado inicialmente, e ai o trabalho vai caminhando.
É um processo bem coletivo mesmo…
CV: É um processo bem coletivo mesmo, não tem como ser diferente. Hoje, a despeito do que eu lhe disse, de tá assumindo uma editoria em particular, a cada tempo da minha escala de plantão, por exemplo… Porque a gente tem uma escala de plantão profissional no final de semana, então dentro da minha escala de plantão, o trabalho que ela [Linda Bezerra] faz, quem faz sou eu. Então, nos finais de semana, esse trabalho que eu to lhe falando, quem faz sou eu.
Os assuntos que são tratados em Local, são assuntos que também podem pertencer a outras editorias. Politica, Violência, Saúde… Mas existe uma equipe especifica de Local, ou esses repórteres migram?
CV: Existe uma editoria especifica de Local, essa editoria compõe o caderno chamado Mais*. Nesse caderno, todas as editorias colaboram. Vocês podem ver tem assunto de local, tem assunto de economia, de mundo, de variedade, tem Brasil, tem esporte, então todas as editorias dão contribuições pra esse caderno. O Mais* congrega a equipe de cidade, a equipe de local. Esse Mais hoje tá dividido em duas equipes: uma equipe cuida dos assuntos relacionados a Bahia e Salvador. Então tudo que disser respeito a assunto de Bahia e Salvador ficam com essa equipe. E o outro grupo, que também integra essa editoria, é o grupo que cuida das noticias de nacional, mundo, economia e política. Quando você pergunta que tem assuntos que podem ser vinculados a outras editorias, tem. Mas isso já ficou de uma forma tão clara, que não se bate mais cabeça por conta disso, não se tem mais conflito por conta disso. Então, deixa eu te dar um exemplo: um assunto de hoje, saiu uma pesquisa falado que Itabuna é uma das cidades baianas com maior violência e a gente sabe que quem cuida disso é a editoria de Bahia. Saiu um assunto com “Quadrilha roubou caixa eletrônico de mercado”, certo? E tá em local, em Salvador. E esses assunto já estão bastante claros em relação à dimensão da noticia. “Prostituta envolvida com Berlusconi lança livro”. A gente sabe que isso é mundo, são as agencias de noticia que nos abastecem com essas informações. Então assim, como as pessoas já sabem quais são suas determinações, não há muito choque em relação “eu vou cobrir ou não vou?”. Então é mais tranquilo.
E com relação as pautas, você falou dessa pessoa que chega mais cedo e dá uma checada nos assuntos. Ela passa esses assuntos, que teoricamente são possíveis de ser pauta pra os reportes diretamente, ou passa por uma pessoa, que eu acho que no caso seria o editor, o chefe de reportagem?
CV: Ela atua como chefe de reportagem
O cargo foi extinto, mas ainda existe essa pessoa que dá uma coordenada…
CV: Existe porque alguém precisa fazer a abertura, alguém precisa fazer esse início. Selecionar, filtrar essas notícias, o que é mais interessante, o que interessa de fato, apostar, fazer as apostas. Por exemplo, suponhamos que hoje às 8 horas da manhã tivessem acontecido três fatos teoricamente importantes ao mesmo tempo e você não tem equipe pra mandar pra esses três locais, então você vai selecionando por ordem de importância o que você prefere cumprir. E essa ordem de importância obedece àqueles critérios de noticiabilidade que vocês já devem ter visto. Localidade, proximidade, identidade, interesse público, enfim.
No período que a gente analisou os jornais, que no caso foi do período de 26 de outubro ate 15 de novembro, a gente notou uma seqüência maior com relação aos três assuntos que a gente analisa, que são saúde, violência e fraude, a gente notou no Correio uma freqüência de notícias relacionadas à violência. Existe um foco mais recente, de fato, da editoria local do correio, a essa denúncia de violência local ou é por conta da quantidade de noticias que chega pra redação?
CV: Existe um direcionamento para que esses assuntos da violência sejam abordados como prioridade.
E existe uma explicação, um motivo definido pra isso?
CV: Quem pode te dar uma explicação mais consistente sobre isso é o editor chefe. Ele pode te falar por que. Mas há uma questão do público que o Correio* atende, de interesse público, as pessoas compram o jornal e elas obviamente querem ver o que está acontecendo na cidade, é uma forma até delas se informarem, tomarem uma postura diante disso. Há uma cobrança por parte do leitor pra que esses assuntos sejam mais tratados dentro do jornal. Teoricamente a prioridade é isso.
A gente notou também uma freqüência de matérias de educação nesse período. Teve prova do ENADE e UFBA. No caso, essa atenção dada pra UFBA nesse sentido é também uma prioridade…
CV: Hoje o Correio* faz uma.. Ele tenta estar cada vez mais em contato com o público leitor. Então as pautas surgem dessa demanda do próprio público. O público quer saber sobre determinada coisa, pede sobre determinado assunto, então essa prioridade é dada de acordo com o interesse do público
Então vocês acreditam que existe uma grande procura do público jovem?
CV: A maior parte é publico adolescente. O Correio* antigo, nas pesquisas, era pontuado muito isso: quem é o público leitor? E o público leitor está constituído de uma faixa-etária mais jovem.
O correio tem agências de pesquisas de público? Essa pesquisa é feita continuamente?
CV: Tem, e mensalmente são realizadas reuniões com gazeteiros, os meninos que vendem jornais, com os donos de banca, com leitores… Enfim, nisso ai o Correio* deu um up, um pulo de qualidade. Ele tá buscando realmente um feedback, um retorno, porque é muito solitário. Você decide, você elege os critérios de noticiabilidade, cria, elabora o jornal… se você não souber de fato quem tá lendo… De repente o que você prioriza, não é o que seu público quer saber de fato. E isso é uma tendência dos meios de comunicação de um modo geral, as revistas querem estar mais perto dos seus públicos, jornal, a TV quer estar mais perto do seu público. Assim sucessivamente.
As revistas têm um público mais especifico. O Correio* trabalha nisso ou trabalha mais com a expansão do público?
CV: Acredito que mais com a expansão, até porque o jornal diário tem uma expectativa bem diferente de uma revista. Uma revista trabalha com segmentação de mercado e o jornal diário quer abranger o maior numero de pessoas. São diferenças de propostas.
Sobre as matérias que são publicadas na sessão 24h, elas são escolhidas após você receber as notícias já prontas ou o jornalista chega na redação sabendo que aquela matéria é pro 24h?
CV: Não, geralmente isso é escolhido depois. Porque você só vai ter a dimensão do assunto na verdade, depois que você vai apurar. Você começa a investigar. Às vezes tem assuntos que a principio irão com mais. Você pensa que rende mais, quando o jornalista chega no local, você vê que é uma coisa menor. Que rende um 24h. Tem assuntos que já saem daqui com essa perspectiva de serem 24h mas na maioria das vezes são determinações que são feitas depois. Depois você tem a dimensão. Ou o contrário. Saem assuntos que seriam pro 24h e ai depois que o jornalista chega até o local, apura, investiga, ele percebe que é uma dimensão muito maior e que ela ganha fôlego pra ser um Mais. Pra ser uma matéria de 2 pgs, de abertura, enfim.
E o fechamento do jornal?
CV: O jornal tem dois deadlines diferenciados. Tem o primeiro fechamento que ocorre logo no início da noite. Os cadernos são rodados diferentemente. O Vida, que é um caderno mais frio, que é um caderno de variedades, esse é rodado primeiro. Às 18h30 ele está indo pra gráfica. Os outros cadernos podem estar na primeira rodada, que deve ser rodada ate às 20h30, então algumas páginas do 24h e do Mais* são rodadas nesses horários. E, por fim, onde tem a capa, é a ultima coisa a ser rodada, que ai vai pra mais tarde mesmo.
Você poderia dar um apanhado dos critérios que são usados pra se escolher o que vai ser manchete, o que vai ser nota, o que vai ter uma dimensão maior ou menor no jornal? Ter um acompanhamento de um fotojornalista, esse tipo de coisa…
CV: Só pra você ter uma noção: os critérios de noticiabilidade adotados são os critérios que levam em consideração a proximidade com o público e com isso o interesse do público, dentro daquilo que eu tava te falando. Os leitores dizem o que lhes interessam mais. Em relação à relevância: um assunto é relevante, um assunto tem repercussão? Então esse assunto é eleito. Geralmente esses critérios são adotados por todo e qualquer jornal, mas o martelo final de fato é batido depois que todo mundo coloca o que tem no dia. Acontecem duas reuniões. Uma às 10 horas da manhã e outra às 17 horas, quando se fecha na verdade o que é que vai sair no jornal, e isso ai vai depender muito desse processo que é muito dinâmico. Suponhamos que hoje de manhã a gente faz um planejamento. A gente faz um planejamento prévio. No dia anterior todos os coordenadores de suas áreas têm uma idéia do que será colocado no jornal do outro dia. É um planejamento. Mas obviamente, até pelo dinamismo da própria atuação, ele sabe que no outro dia outra matéria vai cair, no outro dia uma matéria vai entrar no lugar da outra que ele planejou. Os critérios de noticiabilidade como proximidade com a notícia, interesse do leitor, relevância, impacto, proeminência do assunto, ligado a dinheiro, a segurança pública, aspectos ligados ao lúdico, ao esporte, ao pitoresco. Então esses aspectos que levam em consideração o interesse do leitor. E isso geralmente é definido, fechado nessa reunião das 17 horas.
Na editoria Local, com relação à disponibilidade de recurso de infra-estrutura, equipamento, qual é a disponibilidade, qual é o acesso que o repórter tem? Acontece de um repórter não conseguir cobrir um assunto por falta de suporte técnico?
CV: Raramente. Acontecendo aqui em Salvador, não. Posso lhe garantir. Porque cada repórter da editoria de Local tem um celular, com os créditos dele do mês. Ele usa esses créditos, ele tem acesso aos telefones, a linhas da redação, cada repórter trabalha no seu próprio computador. A gente tem uma equipe de carros que saem pra compor a equipe de reportagem, a equipe de fotógrafos, a editoria de fotografia, ele tem estrutura aqui necessária pro trabalho… Tem orçamento previsto pra viagem, esse tipo de coisa, despesas que por ventura surjam. Sempre surge uma coisa extra e tem essa previsão orçamentária.
E com relação à equipe em si? Você comentou que numa tarde você tem três assuntos muito importantes e não tem equipe suficiente…
CV: Eu acho que jornal nenhum do mundo hoje trabalha com equipe muito folgada. A gente tem trabalhado dentro de estruturas que são estruturas muito enxutas. Se você me perguntar se seria interessante ter mais pessoas pra trabalhar, é claro! Lógico, óbvio, em todos os sentidos. Desafoga o grupo que ta trabalhando, deixa o trabalho mais leve, você trabalharia com um nível menor de tensão. Agora se você pergunta se essa equipe que tá aqui dá conta do recado, dá. A gente já viveu situações de tá com a equipe muito mais reduzida do que a gente tem hoje.
Mas recentemente acontece de perder algum furo/cobertura por conta de falta de equipe?
CV: Não.
E com relação a estagiários, o Correio* busca muito esse trabalho do estagiário como renovação da equipe?
CV: O setor de Recursos Humanos tem um programa de trainee. Se você perguntar se o Correio* busca muito estagiário, não, não busca muito. Tem uma equipe de trainee, eles são entrevistados, a seleção é feita pelo setor de Recursos Humanos e ai eles vão se encaixar em diferentes áreas. Eu acho que aqui, em cada editoria, deve ter um ou dois estagiários, que aí eles podem ser ainda estudantes ou recém formados. Mas assim, não existe uma situação como em outros veículos que a redação é completamente formada por trainee ou por estagiários. Não é o caso.
Acompanhando o jornal esses dias a gente notou uma redução tanto da quantidade quanto do tamanho das noticias na parte do 24h com relação a saúde, meningite, dengue… Existe um motivo?
CV: A gente tá com uma editoria de saúde, que eu trabalho nela. Uma página que é publicada todos os domingos, essa página é recente e a gente tá buscando um formato pra ela, mas geralmente a gente trata um tema e outras notas. Quando são notas muito urgentes, quando são fatos que tem relevância, são fato do factual, a gente aborda no 24h. Mas quando são assuntos que podem ser tratados com um pouco mais de calma, ai elas vão pra essa coluna. Talvez seja por isso que vocês tenham percebido essa diminuição. É um trabalho recente. O nome da editoria é Bahia Saúde e por enquanto ela é semanal. Eu me pauto, eu faço as matérias , eu edito a página, então… Eu não tenho uma equipe pra trabalhar comigo. Com equipe seria beleza. A gente podia fazer uma página por dia sem nenhum problema. Engraçado que quando eu fui convidada a fazer essa página, eu inicialmente fiquei pensando assim “nossa vou ter que procurar, ter que dar um gás pra fazer um elenco de pautas interessantes, e fiz esse elenco de pautas, e se eu usei 2 ou 3 desse elenco, foi muita coisa. Porque tem muita coisa que é factual, tem muita coisa que é pedida. Por exemplo, eu atendi uma solicitação que eu tinha colocado no meu campo de pautas mas eu não imaginava que eu precisasse usar isso tão recentemente. Foi um pedido de um leitor pra que a gente tratasse de síndrome do pânico. Essa leitora falava que no meio dos amigos dela tava se tornando um assuntos muito comum, as essas falarem, serem diagnosticadas com síndrome do pânico. Então ela queria que esse assunto fosse tratado. Um assunto que na minha cabeça só viria mais tarde e tal. E coloquei na ordem do dia.
Então existe uma relação direta com o leitor e a seleção de pauta…
CV: Sim
Dentro da editoria de local e do 24h prevalece o furo ou da notícia agendada?
CV: O furo, sem dúvida alguma. Claro. A gente não pode perder de vista uma coisa que é muito própria da atividade jornalística. É claro que o planejamento é bom, exigido e necessário, mas nada nada nada supera o valor da notícia. É nossa matéria prima principal. Então se alguma coisa surgiu no dia, é quente, tem relevância, é importante, é prioridade. A gente não faz um jornal frio. A frieza dos assuntos é o propósito das revistas semanais. O próprio nome da publicação indica isso. Ele faz uma revisão de tudo que foi falado. Mas a responsabilidade do dia é do jornal diário.
Nos plantões de cada fim de semana a gente trabalha como representante de cada uma das editorias, de cada um dos cadernos. E nesse plantão especifico, todo mundo trabalha fazendo tudo. O fato de durante a semana você estar dentro de uma editoria como o Vida, por exemplo, que é o caderno de entretenimento, não impede que você faça uma matéria de cidade. Não impede que você vá pro Local, que você vá cobrir a morte de alguém, não impede que você vá dar um reforço pro pessoal de esporte. Na verdade, o jornalista é aquele especialista em generalidades, então por mais que você se identifique com uma área, por mais que você se especialize em uma área, pra você ser um bom profissional, você precisa ter a flexibilidade de saber que a apuração é igual em qualquer que seja o assunto. Então você precisa ter essa flexibilidade de trabalhar em qualquer editoria. No plantão todo mundo faz tudo.
E isso acontece no dia a dia ou é só na situação do plantão?
CV: Sim, sim no dia a dia. Existem contribuições.
E o fechamento do Correio* não é definido…
Tem horário de fechamento, mas é aquela velha história. Tem que ter horário de fechamento se não você entra a madrugada esperando pra rodar o jornal na gráfica. Geralmente fecha às 22 horas. É a última rodada. Mas eventualmente, um quadro de um jogo, uma situação… suponhamos que 9:30 aconteceu uma situação, uma coisa como a morte de Michael Jackson, por exemplo. Que foi às 17 horas, estávamos em reunião. E toda a edição do dia foi mudada por conta daquilo dali.
Nessa situação de um furo muito maior, que precisa ser capa… é feito isso com contribuição de toda a equipe?
CV: Todo mundo. O trabalho é em mutirão, todo mundo trabalha junto. Não tem essa coisa de “em editoria eu faço a coluna social e não vou colaborar com nada”. Não existe isso, todo mundo faz tudo. No dia a dia, na rotina, cada um tem suas atribuições, mas é muito natural que, seja nos finais de semana, seja nos plantões especiais, como plantões de feriado e tal, as pessoas sabem que elas vão sair de suas funções habituais e vão fazer o que for necessário pra que o fechamento do jornal aconteça dentro de um tempo hábil, com qualidade necessária, atendendo aos critérios de noticiabilidade certinhos e tal.
Por conta desse ambiente de trabalho o chefe de reportagem foi extinto? Isso aconteceu com as outras editorias?
CV: Com as outras editorias também, porque aqui sempre se teve um chefe de reportagem. O período que eu fiquei na chefia de reportagem eu atendia muito mais ao Local, porque ai você define pauta e essas coisas todas. Como nas outras editorias havia um trabalho menor, essa definição geralmente era feita pelo editor, mas você terminava participando de tudo. Você cobria um pouco de tudo e a chefia de reportagem extinta não é uma característica do jornal Correio. A maioria dos jornais do Brasil não tem mais a figura do chefe de reportagem. As estruturas de redação tão ficando cada vez mais enxutas. Então algumas figuras terminaram assumindo mais função.
Então no caso o editor cumpre mais essa função de chefe de reportagem também… E o que difere um chefe de reportagem de um editor?
CV: O chefe de reportagem é a figura que cuida do planejamento, ele é um gestor. Ele é um jornalista, mas ele é um gerente. De quê? De informação. É ele quem vai fazer um apanhado do que é o dia, vai selecionar os assuntos mais interessantes, vai dizer ao repórter o que é que ele quer, vai pautar o repórter, vai cobrar do repórter o retorno daquilo que foi combinado e vai passar esse material pra que o editor, uma vez que o texto esteja pronto, coloque ele na página, dê a redação final, escolha fotografias, legenda, título, diga qual é a importância, se aquilo é embaixo da página, em cima da página…
A função do editor então é a pós-produção.
CV: Isso. E o chefe é pré-produção. E hoje, por exemplo, nas editorias, nos jornais, o que se quer é que o editor faça tudo. Que ele seja o pré, o durante e o pós. Que ele cuide desse processo inteiro. Outras figuras dentro do jornal foram sumindo também, você não tem mais muitos jornais com revisores, com equipe de revisão. Espera-se que o texto vá pronto e acabado. Sem a necessidade de revisar.
Esse movimento é com relação a corte de custo ou uma praticidade?
CV: O que move o mundo é o dinheiro. É uma questão econômica. É caro manter um jornal impresso e essa estrutura precisa ser sustentada. A gente tem tantos jornais fechando no mundo muito por causa disso. Você tem que criar uma estrutura que de lucro, que seja rentável e opere de forma mais enxuta possível mais sustentável possível.
E é algo que acaba influindo na qualidade física do produto…
CV: Não tenha dúvida. Porque se eu sou um jornalista que todos os dias eu tenha uma pauta pra fazer, eu tenho tempo pra apurar, eu sei que depois minha apuração do meu texto vai passar pra um sub-editor, um revisor vai ver meu texto.. É muito mais confortável. O leitor quando pegar o produto final, esse produto final tem qualidade muito mais garantida que um texto que tá sendo feito por uma pessoa que também tem outras tantas mil coisas pra fazer, um editor que tem mil outras coisas pra fazer, claro que a qualidade é melhor. Um dos nossos grandes desafios é esse. Lidar com tempo curto, a gente trabalha num tempo super espremidinho e a gente conseguir uma qualidade dentro desse tempo curto. Quando você tem tempo pra escrever, você escreve um bom texto. Quando você não tem, o desafio é esse. Num tempo pequeno você dar qualidade aquilo ali. Apuração, investigação, e a expressão daquilo ali que você investigou.
E realmente a proposta do Correio* é o que o nome já diz “o que a Bahia quer saber”.
CV: Sim, a proposta é essa. A proximidade cada vez maior com o público baiano, o público leitor.
