“A notícia tem que ser fiel à realidade o máximo possível”

Por:Danielle Lopes, Fernando Vivas e Leandro Moreira

O jornalista Samuel Lima, 30 anos, é repórter do A Tarde desde 2006. Antes disso, começou a trabalhar como estagiário no jornal Tribuna da Bahia,em 2002, quando ainda era aluno da Facom (Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia). Nos dois jornais, sempre escreveu para a editoria Local, na área de Segurança. Nessa entrevista, Samuel conta como é sua rotina de cobertura dessa área para o jornal A Tarde e avalia algumas matérias publicadas nos outros jornais de Salvador.

Como surgem as pautas em sua editoria no A Tarde ?

As pautas surgem de várias formas. Geralmente conseguimos informações através dos contatos que vamos adquirindo durantes as coberturas (policiais, advogados, etc), e através da Central de Telecomunicação das Polícias Militar e Civil (Centel), que é de onde temos, diariamente, pontos de partida para algumas matérias. Na verdade eles nos dão um respaldo oficial, ou seja, se recebemos alguma informação imprecisa sobre um crime ( a ligação de um leitor, por exemplo), confirmamos com a Centel a veracidade do fato.

Quais são os critérios para escolha de pauta? Você pode comparar esta escolha dentro dos jornais A Tarde e Tribuna da Bahia ?

No meu tempo, lá no Tribuna da Bahia, o pessoal dava muita importância à imagem que causasse maior impacto, por pior que ela fosse. Já aqui no jornal A Tarde, pelo menos quando eu cheguei, já não era assim. Hoje em dia já não usam tanto imagens chocantes (como corpo decepado, esses tipos de coisas), que infelizmente a Tribuna explorava muito. Eu vejo o A Tarde mais preocupado em não veicular certo tipos de imagens, como essas que citei, e até mesmo os textos acabam sendo mais sóbrios. É claro que colocamos também a parte da emoção, não podemos nos abster disto, mas é utilizada de forma equilibrada. A Tribuna acabava por querer personificar os fatos, criar personagens. Aqui, se fazemos isso, inserimos em um contexto ( por exemplo: houve um estupro em determinado bairro, aí já relacionamos a quantidade de estupros que foram registrados anteriormente, para poder dar uma amplitude maior a matéria).

Como é sua rotina de trabalho e quantas matérias você produz em media por dia?

É assim, tem hora para chegar mais não tem hora pra sair. Chego aqui na redação às 14 horas, e a depender do que vá aparecendo durante o dia você vai ficando. O pessoal da manhã já vai fazendo uma apuração e vai deixando as programações , até mesmo pra não repetir. Eu já cheguei a produzir cinco matérias em dia de fim de semana , mas em média um repórter aqui produz cerca de 2 a 3 matérias diariamente.

Caso aconteçam vários homicídios como funciona a escolha do mais noticiável?

Nesse caso o editor vai ter que selecionar: em que situação ocorreu, quem foi a vítima, se é uma pessoa conhecida. Qual teria mais relevância, qual vai causar maior impacto ? Um idoso assassinado a facadas, por exemplo, é um tipo de crime que costuma chocar.

Você encontra dificuldades com a disponibilidade de recursos para a atividade do trabalho (automóveis, equipamentos, etc.)?

Como temos um grupo numeroso de repórteres, às vezes precisamos do mesmo equipamento (veículo, na maioria dos casos) num momento de urgência. O que mais acontece é isso. Agora, em relação à computadores na redação, ou mesmo de uma solicitação de viagem para matéria, por exemplo, não existem impedimentos.

Qual a importância dos anúncios publicitários no A Tarde e como ele influencia na seleção e disposição da noticia ?

O anúncio é a maior parte da receita financeira do jornal impresso, por conta disso ele vai ter a prioridade na página. Matérias caem por conta do anúncio. A distribuição é assim: a página 4 é sempre bloqueada para publicidade (às vezes, mas muito dificilmente, pode entrar um); a 5, na sequência, geralmente vem com meia página de anúncio; na 7 vem um anúncio grande. A matéria tem que obedecer a distribuição do anúncio, pois é isso que mantém as engrenagens.

Qual seria o perfil do leitor do A tarde?

Acredito que seja em grande maioria da classe A e B, talvez C. Porém, mais A e B. A população de renda mais baixa talvez tenha contato com o jornal mais pela internet na lan house, ou numa leitura rápida na banca de revista. Acho que a população da classe mais baixa prefere o Correio, que tem um preço mais acessível, e que adotou agora um perfil mais popular.

Qual a linha editorial do A Tarde?

Eu vejo assim. O jornal às vezes quer ir para o lado popular, mas fica preso às suas raízes, um pouco mais conservadoras, uma visão que se encaixa mais no leitor da elite, até mesmo pelo perfil de seu público. Por exemplo, uma pessoa foi assassinada no subúrbio ferroviário e, no mesmo dia, um adolescente foi assaltado no Itaigara e tomou um tiro no braço. Lógico que a notícia do adolescente veio na frente, porque o Itaigara tem mais o público do jornal.

Até que ponto a sua visão dos fatos interfere na construção da notícia ? E o como você monitora essa interferência? Suas impressões podem estar no seu texto, mas de uma forma mais implícita. Você tem que ser jornalista, se despir da posição de pessoa indignada e ser objetivo. É claro que existem situações absurdas em que você, como jornalista, não pode fechar os olhos e consegue, não de forma escancarada, deixar no texto seu sentimento de “não indiferença” ao que você encontrou. As aspas servem muito bem à esse expediente. É sempre bom ter declarações de pessoas, criando conflitos de opiniões que levem o leitor a refletir sobre o fato. A notícia tem essa característica de despertar discussões, alimentar debates.

Qual sua opinião sobre a reforma ocorrida no A Tarde ?

Essa reformulação privilegiou muito a parte visual, ou seja, a arte, a fotografia. Hoje, com a implantação dos novos templates (modelos pré-estabelecidos de páginas), você tem um espaço maior para a imagem. O que ficou um pouco prejudicado foi o lado do texto em relação ao espaço. Como as fontes são maiores, sobra menos espaços para os textos, que ficaram mais curtos e diretos. O objetivo é proporcionar uma leitura mais agradável e dinâmica.

No dia 25 de outubro o Correio publicou uma notícia sobre o crack na Barra que os outros jornais não publicaram. Por que não saiu no A Tarde ?

Nem todos os jornais têm as mesmas fontes, nem todos vão cobrir sempre o mesmo assunto. Existem as apostas. Às vezes você pode ter uma informação e o outro não. É natural no jornalismo. Disso saem os chamados “furos” de reportagem. A Tribuna, mesmo com suas limitações, já conseguiu vários “furos”. É comum entre os jornais, é uma questão de apostas e oportunidades. No ano passado fizemos uma matéria sobre o crack no Centro Histórico. O Correio não deu. Isso é a concorrência, isso alimenta o apetite do jornalista em correr atrás da notícia.

No dia 02 de novembro o Correio publicou manchete com o assassinato do apresentador de TV Jorge Pedra e o A Tarde só publicou a notícia no site. O que aconteceu ?

Esse fato aconteceu num domingo. Eu estava em casa e fui informado por uma fonte. Isso lá pelas 21h30, liguei para acionar o repórter de plantão do jornal. Por causa do prazo de fechamento, às 22h00, o repórter já saiu da redação sabendo que não daria tempo de publicar a notícia no impresso. Ela foi publicada no site.

No dia 05 de novembro A Tarde publicou uma manchete assinada por você e a correspondente da sucursal de Santo Antônio de Jesus. Explique como aconteceu a edição dessa matéria e por que a foto do personagem principal da notícia, o turista francês mutilado por ladrões, ter sido publicada apenas no Correio.

A correspondente Cristina Santos começou a apurar a matéria em Itaparica. Fui enviado para lá posteriormente. Coube ao editor juntar o meu texto com o dela, fazendo uma distribuição ótica das ideias. Não é muito complicado, não.

Quanto a exclusividade da foto: a relevância do caso exigiria que uma equipe fosse mandada de Salvador imediatamente para Itaparica. Mandaram a sucursal de Santo Antônio que não tinha fotógrafo.

Quando chegamos a Itaparica a equipe do Correio já tinha conseguido fotografar o francês parece que usando o artifício de entrar no hospital como visitante. Repetiram a dose no dia seguinte, no HGE, quando uma estagiária se passou por visitante e fez uma suíte com o francês que tinha sido transferido para Salvador. Talvez ele nem soubesse que estava sendo alvo de uma matéria. Acaba sendo uma invasão de privacidade, além do hospital ter suas regras. É aí que eu não sei até que ponto vale tudo pela notícia.

Leia em edição de revista :

http://www.scribd.com/doc/23352286