“Escrever é a arte de cortar palavras”

Por Mayara Azevedo, Ruan Melo e Camila Queiroz

Repórter há cinco anos do jornal A TARDE, Luísa Torreão fala um pouco sobre sua rotina na redação, como é trabalhar na editoria local e confessa que a concorrência às vezes atrapalha o rendimento do jornal. O fato de ser a repórter mais jovem a ser entrevistada pela nossa equipe, Luísa Torreão não fica atrás das concorrentes. Demonstrando inteligência e sagacidade, ela fala sobre assuntos polêmicos na redação, concorrência e dificuldades que enfrenta no dia-a-dia, tudo isso trabalhando há cinco anos no jornal A TARDE, sendo três anos como repórter da editoria local. Luísa conta um pouco das suas pautas preferidas e de casos que já enfrentou na rotina de trabalho.

Fale um pouco da sua trajetória enquanto profissional:

Bem, fiz faculdade na FACOM e me formei em meados de 2006. Eu já estava estagiando no A TARDE há dois anos no on-line, tanto do jornal, quanto pro cine-in-site, antes de me formar. Entrei no A TARDE no quarto semestre da faculdade. Entrei com a ajuda de um colega meu que estava em um semestre mais avançado e ele trabalhava aqui na época. Passei dois anos estagiando. Fiz minha monografia e quando me formei voltei pra cá. Só que dessa vez voltei pensando no impresso, não mais na internet. Vim e procurei a coordenadora da editoria local, que eu já conhecia porque quando estagiei no online fiz algumas matérias para o impresso. Então estavam precisando de gente porque era um período próximo às eleições. Quando é período de eleições muitos repórteres de Local são deslocados para cobrirem apenas as eleições. Então surgiram vagas, e eu entrei. Já estou há três anos no jornal impresso.

Você mesma sugere a sua pauta ou sempre recebe uma pauta para cobrir?

Geralmente a gente já encontra uma pauta pronta. Mas, os editores incentivam bastante a gente a sugerir a nossa pauta. Isso não acontece sempre, mas sempre que eu tenho uma pauta eu sugiro. Se eu tiver interessada, nós planejamos e vemos um dia pra fazer. Em geral já tem pautas prontas, porque vem muita coisa para os editores, sugestões chegam através do e-mail, fax, da central de interatividade. Os editores vão fazendo a triagem e veem o que realmente vale apena. As vezes também, você tá com a coisa pronta e surge algo urgente e você precisa largar tudo pra cobrir a notícia inesperada.

Qual o tipo de pauta mais difícil de cobrir?

O assunto mais delicado e difícil é quando é relacionado a denúncias, que demanda uma maior investigação. Em Local, a gente tem muitas pautas factuais, que são pautas fáceis porque são coisas que estão acontecendo na cidade e você vai lá cobrir, uma passeata, um acidente, assassinato, uma personalidade que está na cidade. Cobrir isso é mais fácil porque é uma coisa definida. A gente vai lá, volta, é mais tranquilo. A pauta investigativa demanda mais tempo e até mesmo inteligência de você ver por onde tem que ir, quais os rumos que você tem que tomar naquela pauta, você tem que ter certeza do que está apurando. Quando é denúncia você corre o risco de colocar no jornal algo que não é verdade e pode comprometer a credibilidade, a pessoa que foi citada. É uma pauta mais delicada.

Pra você, o que deve ser notícia em um jornal?

Tem o básico que a gente aprende na faculdade: O QUE, ONDE, QUANDO, POR QUÊ? Esse básico é o essencial. Se você está cobrindo uma passeata, você tem que saber o que é essa passeada, qual o motivo que trouxe essas pessoas aqui. Você tem que saber o que levou àquele acontecimento. A gente também tem que observar o entorno e as razões que levaram aquilo que está acontecendo. Temos que ouvir pontos de vistas distintos. Nós sempre procuramos ouvir os dois lados. Temos que ter uma observação apurada para saber o que levou àquele acontecimento.

Como é a sua forma de apuração das notícias?

A depender da pauta a gente vai no local ou não. Se acontecer alguma coisa em um determinado lugar da cidade, temos que ir lá pra ver. Uma passeata a gente tem que ir lá porque dá para apurar por telefone. Tem pautas de repercussão como a minha de hoje, por exemplo, que é a seguinte: o ILÊAIÊ, que sai todo carnaval com um bloco exclusivamente negro, anunciou que vai sair no próximo carnaval além do bloco negro, com um outro bloco em que todos poderão participar. É uma característica que não faz parte do ILÊAIÊ, é uma inovação, novidade. Então é mais uma matéria de repercussão. Eu vou procurar fontes que possam me dar opiniões diversas sobre isso. Vou procurar ouvir um historiador, um sociólogo, alguém que entenda dessa questão de carnaval, do movimento negro. Porque tem gente que acha que vai quebrar com a tradição. Essa é uma pauta que eu não preciso necessariamente ir no lugar. É claro que eu acho que depende da pauta, porque tem entrevistas que só precisam pegar uma fala da pessoa para completar. Isso você pode fazer por telefone, tranquilamente. Mas têm outras que você tem que fazer ao vivo porque a pessoa vai te explicar muitas coisas, geralmente ela tem documento para te mostrar, além de uma série de outras coisas. Portanto, depende muito de cada pauta.

Como vocês lidam com a concorrência?

A mim não me afeta tanto a questão da concorrência. A gente procura dar a notícia da melhor maneira possível. Não gostamos de encontrar no outro jornal uma notícia melhor do que a que a gente fez. Em termos do jornal essa coisa existe, é muito forte. Para os editores é mais ”forte”, porque os repórteres vão muito para a rua. Os editores estão sempre olhando os sites, avaliando o que foi notícia nos outros jornais. Na nossa rotina produtiva a concorrência existe “muito forte”. A gente sempre está tentando desbancar o concorrente. Às vezes tem notícias que o jornal daqui não deu por algum motivo, e sai no concorrente. Então no outro dia a gente procura dar a notícia. Damos a notícia baseada no que foi dado na concorrência. Eu acho que isso atrapalha um pouco a nossa rotina produtiva, porque temos que correr atrás porque o concorrente deu. Não temos o “furo” mas temos que noticiar para não passar “em branco”. Às vezes não tem novidade naquele caso e acabamos repetindo um pouco aquela notícia. Eu não gosto de pegar esse tipo de pauta. Mas se pegar eu tento procurar um novo outro ângulo, um novo olhar sobre aquela notícia. Porém, é difícil você ter que procurar uma novidade.

Como você lida com a questão da ética? Você já passou por alguma situação em que alguém lhe deu uma informação em off e você não pode publicar?

Nunca recebi uma informação que não podia ser divulgada e que eu acabei divulgando. Quando uma fonte não quer se identificar usamos a informação sem utilizar o nome da fonte. A gente não pode dar uma notícia como se ela tivesse saído da nossa cabeça. Tentamos sempre preservar as fontes. Quem não quiser divulgar seu nome, não será divulgado e a gente não divulga, senão perdemos a notícia e a fonte. Acabar não divulgando isso não aconteceu comigo.

Você tem alguma pauta preferida?

Meu tipo de pauta preferida é mais uma pauta com um sentido social. Uma pauta que eu sinta que exista uma função naquilo que eu estou ajudando a divulgar. Exemplo da que eu fiz sobre o parto humanizado, a experiência de ter filho em casa etc. Muitos médicos são contra, já outras pessoas acham que o parto feito no hospital parece um procedimento médico…São pautas que me agradam porque eu acho que estou lançando uma questão positiva e tem uma função social.

Atualmente, um dos assuntos mais discutidos pelos professores na faculdade é sobre o jornalismo on-line. Você acredita que a internet poderá acabar com o jornalismo impresso?

Pelo que eu vejo no jornal A TARDE, o jornalismo online tem tomado uma posição de destaque. Porém, pelo menos no A TARDE, o jornal impresso continua sendo o “carro chefe”e sempre está a frente. Eu acho que podem conviver, jornal impresso, internet, TV. Eu não acho que o jornal impresso vai acabar, pelo menos não por enquanto. Eu prefiro não fazer esse tipo de previsões. Acredito que vai durar um bom tempo. Não é uma coisa que está em declínio, ele está sempre se renovando. O jornal A TARDE está sempre buscando se renovar. Não é fácil manter o mesmo padrão de qualidade, a mesma tiragem, a mesma vendagem. Então o CORREIO se renova, o A TARDE se renova, é sempre um processo continuo. O jornalismo online tem uma característica de dar uma notícia mais instantânea. Nesse sentido o A TARDE online está na frente. Por outro lado, o impresso já aprofunda mais. O online não vai muito para rua, ele tem a urgência de dar logo a notícia. O impresso que tem mais tempo, e por isso a gente vai à rua. Às vezes passamos um dia inteiro procurando uma notícia. Enfim, eu acho que dá pra conviver cada um no seu papel.

Nos últimos anos o jornal passou por uma grande mudança estrutural, seja ela ligada a design, tablóide etc. O que significou pra você essa mudança?

Eu considero importante. Eu acho que deu uma renovada e modernizada, desde mudanças que a gente pode considerar pequenas, como a fonte usada, a cor que estão em alguns elementos da página. São mudanças que poderiam passar despercebidas, mas que no conjunto aquilo provoca uma mudança no leitor. Eu acho que foram mudanças que deram uma agilidade, tanto na leitura, quanto nas imagens, nos destaques do texto que já chamam atenção para o que está na matéria. Eu acho que ajuda na leitura. Para nós da produção não mudou muito. Mudou um pouco no sistema. Antigamente a gente escrevia uma matéria e a página tinha que ser desenhada pelo jornalista gráfico. Agora temos um programa de computador que dá modelos prontos. Por outro lado isso também ajudou no trabalho dos editores, porque já tem os modelos prontos e só tem que ajustar pequenas coisas.

Qual foi o maior impacto que você teve ao sair do mundo “teórico” da faculdade e passar pra rotina da redação?

Às vezes a gente vem, se empolga com uma pauta e quer escrever sobre tudo que apurou. Porque achamos que todas as informações são importantes. Mas não dá para colocar tudo. No jornalismo em si, o escrever já é uma edição. Nem tudo que você ouviu de uma fonte você vai colocar no papel. Tem muitas coisas interessantes mas, infelizmente, não cabem todas. Por si só você tem que fazer uma edição e essa edição, ainda passa pelo editor. Às vezes você escreve muito e seu texto vai ser cortado. É como dizem: “escrever é a arte de cortar palavras”.

Qual o diferencial do jornal A TARDE?

A começar pela estrutura. É inegável que o jornal A TARDE tem uma estrutura maior, tem um número de repórteres maior. É claro que ele também passa por suas dificuldades. Acontece de a gente ir pra rua e faltar carro. Além da estrutura tem a qualidade dos profissionais que trabalham aqui. Fica quem tem uma maior habilidade. Além disso, eu acho que uma qualidade que diferencia o jornal A TARDE é que ele consegue se manter um pouco mais neutro, imparcial em termo de interesse político, de quem é que manda, do que você deve ou não dizer. Quando eu pensei em trabalhar em jornal, eu pensei em trabalhar por isso. Eu não gostaria de estar em um lugar que tivesse uma notícia importante e eu não pudesse noticiar por algum motivo pessoal. Possa ser que haja o aconselhamento, falar para tomar cuidado com a forma que vai colocar. Mas não há uma censura e eu acho que é isso que dá uma credibilidade maior ao jornal.

Muitos pensadores afirmam que impossível para o jornalista manter a imparcialidade na produção de uma matéria. Porém, uma das características, dita universal sobre os jornalistas, é justamente a imparcialidade, o relato puro dos fatos, a neutralidade. O que você tem a dizer sobre isso? É possível produzir matérias sem que seus valores interfiram? Até que ponto o jornalista deve ser parcial ou imparcial?

Eu acho que a imparcialidade total ela não existe. Todos nós somos seres subjetivos. Nós temos que procurar a objetividade ao máximo na hora de escrever, ser os mais claros e concisos possíveis na hora de passar a informação sem colocar a opinião profissional. A matéria tem que ser baseada apenas no que você apurou. Sempre existe a parcialidade de alguma forma porque eu vou escrever de um jeito, você vai escrever de outro jeito a mesma notícia. Eu tenho um estilo de escrever. Então, um outro jornalista vai escrever de uma outra forma da minha. São visões diferentes de uma mesma notícia. Eu acho que a gente tem que buscar a objetividade ao máximo possível. Temos que buscar dar ao leitor um texto atrativo, mas que não seja abstrato e subjetivo demais.

Entrevista no scribd:
http://www.scribd.com/doc/23257220